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Moagem e granulometria: DGM, energia e desempenho animal

Medir diâmetro geométrico médio e desvio padrão geométrico ajuda a fábrica a escolher moinho e peneira e a evitar moagem fina que custa energia e saúde animal.

Por José Evangelista

· 7 min de leitura

Conjunto de peneiras com milho moído em agitador, com moinho de martelos desfocado ao fundo em fábrica de ração
Imagem gerada por IA

A peneira trocada por uma de furo menor reduz a vazão do moinho, eleva a conta de energia e, se a moagem passar do ponto, pode aumentar a incidência de úlceras gástricas em suínos. Do outro lado, um milho moído grosso demais deixa ganho de conversão alimentar na mesa. A decisão sobre o tamanho de partícula envolve o formulador, o gerente de produção e o financeiro, e começa por um número que muitas fábricas ainda não medem com regularidade: o diâmetro geométrico médio (DGM). Vamos enteder mais sobre a Moagem e Granulometria.

O que DGM e DPG dizem sobre a ração

O DGM, expresso em micrômetros (µm), representa o tamanho médio das partículas de uma amostra moída. Ele é calculado a partir da massa retida em uma série de peneiras com aberturas em progressão geométrica, porque a distribuição de tamanhos após a moagem segue, aproximadamente, uma curva log-normal.

O desvio padrão geométrico (DPG) mede a dispersão em torno dessa média. Quanto menor o DPG, mais uniforme é a amostra. Duas rações com o mesmo DGM podem se comportar de forma diferente na mistura, no transporte e no comedouro se uma delas tiver muito pó e muitos fragmentos grossos ao mesmo tempo. Por isso, os guias de qualidade da Kansas State University recomendam acompanhar os dois indicadores juntos.

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A referência internacional para o cálculo é a norma ANSI/ASAE S319 (método para determinar e expressar a finura de materiais para ração por peneiramento). No Brasil, a Embrapa Suínos e Aves publicou o método de determinação da granulometria de ingredientes para rações de suínos e aves (Comunicado Técnico 215, 1996) e disponibiliza gratuitamente o software Granucalc, que calcula DGM e DPG a partir das massas retidas em cada peneira.

Moinho de martelos ou moinho de rolos

O moinho de martelos é o equipamento mais comum nas fábricas brasileiras. Ele aceita grãos e materiais fibrosos, tem manutenção de custo relativamente baixo e permite ajustar a granulometria pela troca da peneira, pela velocidade de ponta dos martelos, pelo padrão de montagem dos martelos e pela assistência de ar. A contrapartida é uma distribuição de partículas mais larga, com maior fração de finos.

O moinho de rolos produz partículas mais uniformes, com DPG menor e pouco pó. Material técnico da Northern Crops Institute (North Dakota State University) aponta vantagem de 30% a 50% em produção por kWh na moagem típica de grãos para ração, podendo ser maior na moagem grossa. O guia da Kansas State indica que essa vantagem energética vale para partículas acima de 400 a 500 µm. Os rolos, porém, não trabalham bem com ingredientes fibrosos e exigem manutenção mais cara, como a recorrugação dos cilindros.

Característica

Moinho de martelos

Moinho de rolos

Uniformidade (DPG)

Maior dispersão, mais finos

Menor dispersão, pouco pó

Energia por tonelada

Maior, sobretudo em moagem grossa

Menor acima de ~400–500 µm

Ingredientes fibrosos

Processa bem

Pouco eficiente

Ajuste de granulometria

Peneira, velocidade, martelos, ar

Abertura e número de pares de rolos

Manutenção

Custo menor (martelos, peneiras)

Custo maior (recorrugação)

Energia e vazão: o custo de cada micrômetro

A relação entre finura e energia não é linear. Em dados reunidos na publicação MF-2050 da Kansas State University (Goodband, Tokach e Nelssen, 2002), o consumo para moer a 600 µm ficou em torno de 2,6 kWh/t, enquanto a 400 µm subiu para 8,1 kWh/t, com queda acentuada da produção horária. Em moinho de rolos, um estudo publicado no Journal of Animal Science (Gebhardt et al., 2018) registrou de 1,11 kWh/t na configuração mais grossa a 2,17 kWh/t na mais fina, com a vazão caindo de cerca de 13 para 7,4 t/h.

Os valores dependem do grão, da umidade, da dureza do endosperma e do equipamento. A tendência, porém, é consistente: abaixo de certa faixa, cada redução de DGM custa mais energia e mais horas de moinho, e a moagem pode virar gargalo da fábrica.

Efeito no desempenho de suínos e aves

Em suínos, a redução do tamanho de partícula aumenta a área de contato do alimento com as enzimas digestivas. A MF-2050 estima melhora próxima de 5% na eficiência alimentar ao reduzir o milho de 1.100 para 700 µm em terminação e recomenda faixa de 600 a 800 µm para rações completas, com alvo próximo de 700 µm. Para trigo, a faixa indicada é de 800 a 900 µm.

O limite inferior existe por causa da saúde gástrica. Segundo a mesma publicação, a frequência de úlceras aumenta quando o tamanho de partícula fica abaixo de 500 µm, com mais ulceração e queratinização da região esofágica do estômago. A moagem muito fina também favorece pó e problemas de fluxo em silos e comedouros.

Em aves, a resposta é diferente. A moela funciona como órgão de moagem e se desenvolve melhor com partículas mais grossas. Trabalhos revisados na literatura brasileira e internacional apontam bons resultados de frangos com milho em torno de 800 a 900 µm em rações fareladas, e a MF-2050 registra que, para poedeiras, não houve vantagem em moer abaixo de 800 µm. Para o calcário de poedeiras, comunicado técnico da Embrapa Suínos e Aves (2014) cita a importância de partículas acima de 1.000 µm para a formação da casca. A resposta das aves à moagem fina tende a ser maior em rações simples (milho e farelo de soja) fareladas e menor em rações peletizadas ou trituradas.

Granulometria e peletização

A relação entre moagem e qualidade do pélete não tem resposta única. Partículas menores oferecem mais superfície para absorver vapor no condicionamento e podem melhorar a durabilidade do pélete, mas os estudos mostram resultados variáveis: em rações à base de milho, há trabalhos sem diferença significativa no índice de durabilidade (PDI) entre granulometrias, enquanto em rações de trigo a moagem mais fina melhorou produção e PDI. A orientação técnica recorrente é moer tão fino quanto a qualidade de pélete exigir, e não mais, porque o custo da moagem fina pode superar o ganho na peletizadora.

Na prática: checklist para a fábrica

  • Defina alvos de DGM e DPG por espécie e fase, em conjunto com a nutrição, e registre-os na ficha de produção.

  • Faça análise granulométrica com frequência regular: o guia da Kansas State sugere avaliação diária em moinhos de rolos e semanal em moinhos de martelos, com coleção completa de peneiras ao menos mensalmente.

  • Padronize o método: mesma massa de amostra, mesmo tempo de agitação, mesmo uso de agentes dispersantes e recuperação de massa próxima de 100%. Mudanças de método alteram o DGM medido.

  • Monitore kWh/t e t/h do moinho junto com o DGM para enxergar o custo real de cada ajuste de peneira.

  • Inspecione peneiras furadas e martelos gastos: ambos elevam o DGM e o DPG sem aviso no painel.

  • Em suínos, trate rações com DGM abaixo de 500 µm como ponto de atenção sanitária e acompanhe achados de úlcera no frigorífico.

  • Em aves, avalie se a moagem fina se paga quando a ração for peletizada ou triturada.

O que está em jogo para o gestor

Granulometria é uma variável de processo com efeito direto em três linhas do custo: energia elétrica, capacidade instalada e conversão alimentar no campo. A fábrica que mede DGM e DPG de forma padronizada consegue negociar com a nutrição um alvo por produto, calcular quanto cada 100 µm custa em kWh e em horas de moinho e decidir com dados se vale investir em moinho de rolos, em mais capacidade de moagem ou apenas em rotina de manutenção de peneiras e martelos.

Referências

  • granulometria
  • DGM
  • moinho de martelos
  • moinho de rolos
  • moagem de milho
  • úlcera gástrica em suínos
  • peletização
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