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Aminoácidos e proteína ideal: até onde reduzir a PB

Lisina, metionina, treonina, valina e outros aminoácidos permitem reduzir farelo de soja e excreção de nitrogênio, com limites que o formulador precisa conhecer.

Por José Evangelista

· 7 min de leitura

Estação de dosagem de microingredientes com aminoácidos em pó sobre balança de precisão em fábrica de ração
Imagem gerada por IA

Cada ponto percentual de proteína bruta (PB) retirado de uma dieta de milho e farelo de soja libera espaço na fórmula, reduz o nitrogênio excretado e, em boa parte dos cenários de preço, baixa o custo por tonelada. Para isso, o formulador substitui parte do farelo de soja por aminoácidos industriais e passa a trabalhar com exigências em aminoácidos digestíveis, e não em proteína. O limite dessa substituição é nutricional e operacional, e chega antes do que a planilha de custo sugere. Análise sobre até onde reduzir a PB.

Proteína ideal em aminoácidos digestíveis

O conceito de proteína ideal expressa a exigência de cada aminoácido essencial como proporção da lisina digestível, tomada como referência (100). Treonina, metionina + cistina, triptofano, valina, isoleucina e arginina ganham relações fixas com a lisina para cada fase e espécie. Quando a exigência de lisina muda, por genética, sexo ou idade, as demais acompanham.

No Brasil, a principal referência para essas relações e para os valores de digestibilidade de ingredientes são as Tabelas Brasileiras para Aves e Suínos: composição de alimentos e exigências nutricionais, coordenadas por Horácio Santiago Rostagno e Luiz Fernando Teixeira Albino, da Universidade Federal de Viçosa (UFV). A edição mais recente é a 5ª, de 2024, com dados de composição química, energia e aminoácidos digestíveis dos alimentos e exigências para frangos, matrizes, poedeiras, codornas e suínos.

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Trabalhar com aminoácidos digestíveis, em vez de totais, é o que torna a redução de PB segura: o farelo de soja e os coprodutos têm digestibilidades diferentes, e os aminoácidos industriais são considerados praticamente 100% digestíveis.

O portfólio de aminoácidos industriais

Aminoácido

Forma usual

Papel na dieta de baixa PB

Lisina

L-lisina HCl ou sulfato

Primeiro limitante em suínos; referência da proteína ideal

Metionina

DL-metionina (ou análogo hidroxi)

Primeiro limitante em aves em milho e soja

Treonina

L-treonina

Normalmente o terceiro limitante; ligada à mucina intestinal

Valina

L-valina

Passa a limitar com reduções maiores de PB

Triptofano

L-triptofano

Relevante em suínos e com coprodutos de milho

Isoleucina

L-isoleucina

Limita em dietas muito reduzidas e com hemoglobina/plasma

Arginina

L-arginina

Mais relevante em aves, que não a sintetizam

Ordem de limitação varia com os ingredientes, a espécie e a fase. Confirme com a matriz de ingredientes da fábrica.

Em dietas de milho e farelo de soja para frangos, metionina, lisina e treonina costumam ser os três primeiros limitantes. Em suínos, a lisina vem primeiro, seguida por treonina, metionina e triptofano. À medida que a PB cai e esses quatro entram em forma industrial, valina, isoleucina e arginina passam a determinar o ponto mínimo de PB. A disponibilidade comercial de L-valina, L-isoleucina e L-arginina ampliou esse limite, mas cada novo aminoácido incluído precisa ser justificado no preço.

Benefícios para custo, ambiente e intestino

O ganho de custo vem da troca de farelo de soja por milho e aminoácidos industriais. Ele depende da relação de preços entre soja, milho e cada aminoácido, que oscila; por isso, a formulação de custo mínimo deve rodar com os preços atualizados e com a exigência expressa em digestíveis, deixando a PB como resultado, e não como restrição fixa.

O ganho ambiental está documentado. Em suínos em crescimento, meta-análises citadas por Cappelaere et al. (2024, Journal of Animal Science) indicam redução de cerca de 8% na excreção de nitrogênio e de aproximadamente 10% nas emissões de amônia por ponto percentual de PB reduzido, em reduções moderadas. O mesmo estudo observou um platô: a partir de certo nível de redução, o benefício ambiental adicional deixou de aparecer e o desempenho pode ser prejudicado.

Há também efeito sanitário. Menos proteína não digerida chegando ao intestino grosso significa menos substrato para fermentação proteolítica, associada a compostos como amônia e aminas. Em leitões no pós-desmame, a redução de PB com suplementação de aminoácidos é uma das ferramentas usadas para controlar diarreia. Nas aves, menos nitrogênio excretado tende a se refletir em menor umidade e amônia na cama, o que interfere em lesões de coxim plantar.

Os limites práticos

Em frangos de corte, a revisão de Selle et al. (2021, Journal of Animal Science and Biotechnology) considera viáveis reduções moderadas de PB, da ordem de até 3 pontos percentuais (30 g/kg). Reduções maiores tendem a piorar a conversão alimentar e aumentar a deposição de gordura, mesmo com todos os essenciais atendidos.

Dois fatores explicam parte desse limite em aves. O primeiro é a glicina e a serina. A ave excreta nitrogênio como ácido úrico, cuja síntese consome glicina. Com menos PB, a oferta de glicina + serina cai, e esses aminoácidos, ditos não essenciais, passam a limitar o desempenho. A revisão de Siegert e Rodehutscord (2019, British Poultry Science) trata do tema e sustenta a prática de fixar um mínimo de glicina + serina digestíveis ou de glicina equivalente na formulação. O segundo é a relação amido:proteína, que se amplia quando o farelo de soja sai e o milho entra.

Em suínos, o limite aparece quando a relação entre lisina digestível e PB fica muito alta: o animal passa a sentir falta de nitrogênio para síntese de aminoácidos não essenciais, e o desempenho cai.

Na prática: o que o formulador deve observar

  • Formule por aminoácidos digestíveis e use a mesma base de digestibilidade para ingredientes e exigências.

  • Inclua restrições para valina, isoleucina, arginina e triptofano, além de lisina, metionina + cistina e treonina.

  • Em frangos, fixe um mínimo de glicina + serina digestíveis ao reduzir a PB.

  • Não trave a PB mínima por hábito; acompanhe a relação lisina digestível:PB como indicador de limite.

  • Recalcule a matriz quando os aminoácidos analisados do farelo de soja ou dos coprodutos mudarem de lote.

  • Simule o custo com e sem cada aminoácido industrial para confirmar que a inclusão se paga.

O impacto na fábrica

Cada aminoácido incluído é mais um microingrediente para receber, armazenar, dosar e rastrear. Em uma dieta com seis ou sete aminoácidos industriais, alguns entram em doses de poucas centenas de gramas por tonelada. Isso exige balança de microingredientes com resolução adequada ou pré-mistura, sequência de adição definida e verificação de coeficiente de variação (CV) do misturador. Erros de dosagem em aminoácidos têm efeito direto no desempenho, já que a fórmula foi ajustada sem margem de proteína.

No estoque, a ampliação do portfólio pede controle de lote e validade, cuidado com produtos higroscópicos (a L-lisina HCl e alguns aminoácidos tendem a empedrar com umidade) e planejamento de compras, já que parte desses produtos é importada e sujeita a prazo e câmbio. Análises periódicas de aminoácidos na ração acabada confirmam que a dosagem chegou à ração.

Decisão para o gestor

Reduzir a PB com aminoácidos industriais é uma decisão de formulação e também de estrutura. Antes de liberar dietas com seis ou mais aminoácidos, o gestor deve confirmar que a fábrica tem dosagem de microingredientes, CV de mistura e controle analítico compatíveis com uma fórmula sem folga proteica. Se tiver, o ganho em custo e em nitrogênio é capturado. Se não tiver, a redução de PB deve ser gradual, acompanhando os investimentos em dosagem e em análise.

Referências

  • aminoácidos industriais
  • proteína ideal
  • aminoácidos digestíveis
  • dieta de baixa proteína
  • L-valina
  • glicina
  • Tabelas Brasileiras
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