Aminoácidos e proteína ideal: até onde reduzir a PB
Lisina, metionina, treonina, valina e outros aminoácidos permitem reduzir farelo de soja e excreção de nitrogênio, com limites que o formulador precisa conhecer.
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Cada ponto percentual de proteína bruta (PB) retirado de uma dieta de milho e farelo de soja libera espaço na fórmula, reduz o nitrogênio excretado e, em boa parte dos cenários de preço, baixa o custo por tonelada. Para isso, o formulador substitui parte do farelo de soja por aminoácidos industriais e passa a trabalhar com exigências em aminoácidos digestíveis, e não em proteína. O limite dessa substituição é nutricional e operacional, e chega antes do que a planilha de custo sugere. Análise sobre até onde reduzir a PB.
Proteína ideal em aminoácidos digestíveis
O conceito de proteína ideal expressa a exigência de cada aminoácido essencial como proporção da lisina digestível, tomada como referência (100). Treonina, metionina + cistina, triptofano, valina, isoleucina e arginina ganham relações fixas com a lisina para cada fase e espécie. Quando a exigência de lisina muda, por genética, sexo ou idade, as demais acompanham.
No Brasil, a principal referência para essas relações e para os valores de digestibilidade de ingredientes são as Tabelas Brasileiras para Aves e Suínos: composição de alimentos e exigências nutricionais, coordenadas por Horácio Santiago Rostagno e Luiz Fernando Teixeira Albino, da Universidade Federal de Viçosa (UFV). A edição mais recente é a 5ª, de 2024, com dados de composição química, energia e aminoácidos digestíveis dos alimentos e exigências para frangos, matrizes, poedeiras, codornas e suínos.
Trabalhar com aminoácidos digestíveis, em vez de totais, é o que torna a redução de PB segura: o farelo de soja e os coprodutos têm digestibilidades diferentes, e os aminoácidos industriais são considerados praticamente 100% digestíveis.
O portfólio de aminoácidos industriais
Aminoácido | Forma usual | Papel na dieta de baixa PB |
|---|---|---|
Lisina | L-lisina HCl ou sulfato | Primeiro limitante em suínos; referência da proteína ideal |
Metionina | DL-metionina (ou análogo hidroxi) | Primeiro limitante em aves em milho e soja |
Treonina | L-treonina | Normalmente o terceiro limitante; ligada à mucina intestinal |
Valina | L-valina | Passa a limitar com reduções maiores de PB |
Triptofano | L-triptofano | Relevante em suínos e com coprodutos de milho |
Isoleucina | L-isoleucina | Limita em dietas muito reduzidas e com hemoglobina/plasma |
Arginina | L-arginina | Mais relevante em aves, que não a sintetizam |
Ordem de limitação varia com os ingredientes, a espécie e a fase. Confirme com a matriz de ingredientes da fábrica.
Em dietas de milho e farelo de soja para frangos, metionina, lisina e treonina costumam ser os três primeiros limitantes. Em suínos, a lisina vem primeiro, seguida por treonina, metionina e triptofano. À medida que a PB cai e esses quatro entram em forma industrial, valina, isoleucina e arginina passam a determinar o ponto mínimo de PB. A disponibilidade comercial de L-valina, L-isoleucina e L-arginina ampliou esse limite, mas cada novo aminoácido incluído precisa ser justificado no preço.
Benefícios para custo, ambiente e intestino
O ganho de custo vem da troca de farelo de soja por milho e aminoácidos industriais. Ele depende da relação de preços entre soja, milho e cada aminoácido, que oscila; por isso, a formulação de custo mínimo deve rodar com os preços atualizados e com a exigência expressa em digestíveis, deixando a PB como resultado, e não como restrição fixa.
O ganho ambiental está documentado. Em suínos em crescimento, meta-análises citadas por Cappelaere et al. (2024, Journal of Animal Science) indicam redução de cerca de 8% na excreção de nitrogênio e de aproximadamente 10% nas emissões de amônia por ponto percentual de PB reduzido, em reduções moderadas. O mesmo estudo observou um platô: a partir de certo nível de redução, o benefício ambiental adicional deixou de aparecer e o desempenho pode ser prejudicado.
Há também efeito sanitário. Menos proteína não digerida chegando ao intestino grosso significa menos substrato para fermentação proteolítica, associada a compostos como amônia e aminas. Em leitões no pós-desmame, a redução de PB com suplementação de aminoácidos é uma das ferramentas usadas para controlar diarreia. Nas aves, menos nitrogênio excretado tende a se refletir em menor umidade e amônia na cama, o que interfere em lesões de coxim plantar.
Os limites práticos
Em frangos de corte, a revisão de Selle et al. (2021, Journal of Animal Science and Biotechnology) considera viáveis reduções moderadas de PB, da ordem de até 3 pontos percentuais (30 g/kg). Reduções maiores tendem a piorar a conversão alimentar e aumentar a deposição de gordura, mesmo com todos os essenciais atendidos.
Dois fatores explicam parte desse limite em aves. O primeiro é a glicina e a serina. A ave excreta nitrogênio como ácido úrico, cuja síntese consome glicina. Com menos PB, a oferta de glicina + serina cai, e esses aminoácidos, ditos não essenciais, passam a limitar o desempenho. A revisão de Siegert e Rodehutscord (2019, British Poultry Science) trata do tema e sustenta a prática de fixar um mínimo de glicina + serina digestíveis ou de glicina equivalente na formulação. O segundo é a relação amido:proteína, que se amplia quando o farelo de soja sai e o milho entra.
Em suínos, o limite aparece quando a relação entre lisina digestível e PB fica muito alta: o animal passa a sentir falta de nitrogênio para síntese de aminoácidos não essenciais, e o desempenho cai.
Na prática: o que o formulador deve observar
Formule por aminoácidos digestíveis e use a mesma base de digestibilidade para ingredientes e exigências.
Inclua restrições para valina, isoleucina, arginina e triptofano, além de lisina, metionina + cistina e treonina.
Em frangos, fixe um mínimo de glicina + serina digestíveis ao reduzir a PB.
Não trave a PB mínima por hábito; acompanhe a relação lisina digestível:PB como indicador de limite.
Recalcule a matriz quando os aminoácidos analisados do farelo de soja ou dos coprodutos mudarem de lote.
Simule o custo com e sem cada aminoácido industrial para confirmar que a inclusão se paga.
O impacto na fábrica
Cada aminoácido incluído é mais um microingrediente para receber, armazenar, dosar e rastrear. Em uma dieta com seis ou sete aminoácidos industriais, alguns entram em doses de poucas centenas de gramas por tonelada. Isso exige balança de microingredientes com resolução adequada ou pré-mistura, sequência de adição definida e verificação de coeficiente de variação (CV) do misturador. Erros de dosagem em aminoácidos têm efeito direto no desempenho, já que a fórmula foi ajustada sem margem de proteína.
No estoque, a ampliação do portfólio pede controle de lote e validade, cuidado com produtos higroscópicos (a L-lisina HCl e alguns aminoácidos tendem a empedrar com umidade) e planejamento de compras, já que parte desses produtos é importada e sujeita a prazo e câmbio. Análises periódicas de aminoácidos na ração acabada confirmam que a dosagem chegou à ração.
Decisão para o gestor
Reduzir a PB com aminoácidos industriais é uma decisão de formulação e também de estrutura. Antes de liberar dietas com seis ou mais aminoácidos, o gestor deve confirmar que a fábrica tem dosagem de microingredientes, CV de mistura e controle analítico compatíveis com uma fórmula sem folga proteica. Se tiver, o ganho em custo e em nitrogênio é capturado. Se não tiver, a redução de PB deve ser gradual, acompanhando os investimentos em dosagem e em análise.
Referências
Rostagno, H. S.; Albino, L. F. T. (coord.). Tabelas Brasileiras para Aves e Suínos: composição de alimentos e exigências nutricionais. 5. ed. Viçosa: UFV, 2024. ISBN 9788581792064.
Selle, P. H. et al. Progress towards reduced-crude protein diets for broiler chickens and sustainable chicken-meat production. Journal of Animal Science and Biotechnology, 2021. https://link.springer.com/article/10.1186/s40104-021-00550-w
Siegert, W.; Rodehutscord, M. The relevance of glycine and serine in poultry nutrition: a review. British Poultry Science, v. 60, n. 5, 2019. https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/00071668.2019.1622081
Cappelaere, L. et al. Environmental benefits of crude protein reduction in growing pig diets: is it worth going further? Journal of Animal Science, 2024. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11561583
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