Farelo de soja: como comprar, comparar ofertas e receber
Guia para fábrica, revenda e produtor: tipos de farelo de soja, padrão oficial do MAPA, custo por kg de proteína e o que conferir na descarga.
· 8 min de leitura

Quem compra farelo de soja precisa comparar ofertas pela proteína entregue na fábrica, e não pelo valor da tonelada. Entram na conta a proteína bruta (PB) garantida, a umidade, o frete e a entrega em saco ou granel. Na descarga, a análise confirma PB, umidade e processamento térmico.
Tipos de farelo de soja: 44, 46 e 48% de proteína
O farelo de soja é o que sobra do grão após a extração do óleo, seguida de tostagem. Os teores comerciais mais comuns são 44, 46 e 48% de PB, e a diferença está na casca: o farelo de alta proteína (48%) vem de grão descascado. A base Feedipedia, da FAO, registra para o descascado de 47 a 49% de PB e cerca de 3% de fibra, contra menos de 47% de PB e mais de 6% de fibra no farelo com casca. O descascado tem cerca de 5% mais energia e 10 a 15% mais lisina.
Não confunda com dois produtos vizinhos. A soja integral é o grão com óleo, tratado termicamente; amostras da Embrapa Suínos e Aves tiveram média de 36,8% de PB e 22,6% de óleo no grão in natura. O concentrado proteico de soja passa por lavagem alcoólica ou ácida que remove açúcares e oligossacarídeos e tem no mínimo 65% de PB na matéria seca, segundo o Conselho de Exportação de Soja dos EUA (USSEC).
O que diz o padrão oficial do MAPA
O padrão oficial de classificação do farelo de soja é a Portaria MA nº 795, de 15 de dezembro de 1993, listada como norma vigente no compêndio de produtos vegetais do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). Não há instrução normativa posterior para o produto nesse compêndio. A portaria separa o farelo em cru e tostado e em três tipos, todos com no máximo 12,5% de umidade e 2,5% de gordura residual:
Tipo 1: mínimo de 48% de PB; máximo de 5% de fibra, 6% de cinza e 0,3% de insolúveis em ácido clorídrico (HCl), indicador de terra e areia.
Tipo 2: mínimo de 46% de PB; máximo de 6% de fibra, 6% de cinza e 0,5% de insolúveis em HCl.
Tipo 3: mínimo de 44% de PB; máximo de 7% de fibra, 6,5% de cinza e 0,5% de insolúveis em HCl.
No tostado, a atividade ureática deve ficar entre 0,05 e 0,25 unidade de pH. Cada lote deve trazer classificação, peso, responsável, número do lote e validade.
Como comparar ofertas de farelo: custo por kg de proteína
Divida o valor da tonelada entregue (produto mais frete) pelos quilos de PB que ela contém. Exemplo com valores hipotéticos, só para mostrar a conta:
Oferta A: farelo 46%, R$ 1.000/t na origem, frete de R$ 60/t. Custo entregue de R$ 1.060 por 460 kg de PB = R$ 2,30 por kg de PB.
Oferta B: farelo 48%, R$ 1.050/t na origem, frete de R$ 20/t. Custo entregue de R$ 1.070 por 480 kg de PB = R$ 2,23 por kg de PB.
Sem o frete, A sairia mais barata; com ele, B passa à frente, e ainda entrega menos fibra e mais energia. A umidade entra na mesma conta: água paga como farelo reduz a proteína por tonelada, e cargas com umidade diferente devem ser comparadas na matéria seca.
Também pesam: saco de 50 kg ou granel (embalagem, mão de obra, silo e moega), lote mínimo, prazo de pagamento e desconto por PB ou umidade fora do contrato. Como o farelo acompanha o mercado internacional de soja e o câmbio, compare ofertas da mesma data.
Qualidade no recebimento do farelo de soja
As faixas abaixo valem para farelo tostado, não para soja integral ou concentrado.
PB, umidade, fibra e extrato etéreo: confira contra o tipo contratado. Fibra alta indica excesso de casca; extrato etéreo alto, extração incompleta.
Atividade ureática: indica se o calor inativou os inibidores de tripsina. A Embrapa Suínos e Aves usa 0,05 a 0,25 unidade de pH como referência. Valores baixos não revelam excesso de calor.
Solubilidade proteica em KOH (hidróxido de potássio): aponta o excesso de calor. A Universidade da Geórgia considera ótimo de 78 a 84%; abaixo de 78%, e sobretudo de 74%, cai a disponibilidade de lisina.
Cor e odor: aspecto e odor de tostado. Farelo marrom-escuro sugere sobreaquecimento; cheiro de mofo ou ranço justifica segregar o lote.
Granulometria, casca e contaminantes: peça a especificação de granulometria, observe cascas soltas e grumos, e verifique terra, areia e matérias estranhas. Laudo microbiológico, quando o cliente ou a espécie exigirem.
Armazenagem do farelo de soja em saco e a granel
Farelo absorve umidade do ar. Com umidade alta ou condensação, empedra, aquece e mofa. No ensacado: estrados, distância das paredes, galpão coberto e ventilado, controle de roedores e insetos e rotação de estoque. No granel: silo limpo entre cargas e controle de temperatura e de pontes que travam a descarga. O prazo de uso é a validade informada no lote, se a armazenagem for adequada. Para o comprador, a decisão se resume a pagar por proteína entregue e conferida, com o laudo de cada carga arquivado junto à nota.
O que avaliar | Por que importa | O que perguntar ao fornecedor |
|---|---|---|
PB garantida e tipo | Define a proteína paga | Qual o tipo pela Portaria 795 e a tolerância de PB? |
Umidade | Água paga como farelo; risco de mofo | Qual a umidade máxima e o desconto se exceder? |
Urease e KOH | Indicam se o processamento térmico foi adequado | Envia laudo de urease e solubilidade por lote? |
Fibra e casca | Reduzem energia e lisina disponível | O farelo é descascado? Qual a fibra máxima? |
Frete e forma de entrega | Mudam o custo por kg de PB | Saco ou granel? Frete incluso? Lote mínimo? |
Rastreabilidade | Permite reclamar e recolher | O lote vem identificado com validade? |
Na prática: perguntas para fazer ao fornecedor
Qual o tipo e a PB garantida, e em que base de umidade?
Qual a umidade máxima no contrato e a regra de desconto?
Envia laudo de urease, solubilidade em KOH, fibra e extrato etéreo por carga?
O farelo 48 é de grão descascado? Qual a fibra máxima?
Qual a validade do lote e a data de produção?
O frete está incluso? Qual o lote mínimo para granel?
Como funciona a devolução de carga fora do padrão?
Qual o laboratório usado e se aceita contraprova?
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre farelo de soja 46 e 48? O farelo 48 tem no mínimo 48% de proteína bruta e menos fibra, porque é produzido com grão descascado. O 46 mantém parte da casca. Pela Portaria MA 795/1993, o 48 é o tipo 1 (fibra máxima de 5%) e o 46 é o tipo 2 (fibra máxima de 6%). Compare pelo custo por kg de proteína entregue.
Farelo de soja pode ser dado direto ao animal? Depende da espécie e da categoria. O farelo de soja é um ingrediente proteico, não uma ração completa: não fornece sozinho energia, minerais e vitaminas na proporção que o animal precisa. Ele entra em dietas formuladas ou em suplementos. Use farelo tostado e consulte um nutricionista para definir a quantidade e o complemento.
Quanto tempo dura o farelo de soja armazenado? O prazo é o de validade que o fornecedor informa no lote, exigência da Portaria MA 795/1993. Na prática, ele depende da umidade de recebimento e das condições do armazém. Galpão seco e ventilado, estrados, controle de pragas e rotação de estoque preservam o produto. Farelo empedrado, com cheiro de mofo ou aquecido deve ser segregado.
Como saber se o farelo de soja foi bem tostado? Peça a atividade ureática e a solubilidade proteica em KOH. Pelas referências da Embrapa e da Universidade da Geórgia, urease entre 0,05 e 0,25 unidade de pH e solubilidade entre 78 e 84% indicam processamento adequado. Urease alta sugere pouco calor; solubilidade baixa e cor escura sugerem excesso de calor.
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Referências
Ministério da Agricultura. Portaria MA nº 795, de 15/12/1993: norma de identidade, qualidade, embalagem, marcação e apresentação do farelo de soja. Cópia: https://idrparana.pr.gov.br/sites/iapar/arquivos_restritos/files/documento/2020-07/farelosoja795_93.pdf (listada como vigente no Compêndio de Produtos Vegetais do MAPA: https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/inspecao/produtos-vegetal/legislacao-programas-nacionais-e-seguranca-dos-alimentos-1/legislacao/compendios/compendio-produtos-vegetais.pdf)
University of Georgia, Poultry Extension. Soybeans: Quality Control. https://poultry.caes.uga.edu/extension/poultry-nutrition/soybeans/quality-control.html
Embrapa Suínos e Aves. Krabbe, E. L.; Gopinger, E.; Carvalho, J. E. Monitoramento da qualidade de soja integral desativada. Comunicado Técnico 600, 2022. https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/1151972/1/COT-600-Everton-Krabbe.pdf
Feedipedia (INRAE, CIRAD, AFZ, FAO). Soybean meal. https://feedipedia.review.fao.org/node/674
USSEC. Soy Protein Concentrate Fact Sheet. https://solutions.ussec.org/wp-content/uploads/2023/08/SPC-Fact-Sheet-.pdf
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