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Adsorvente de micotoxinas: como escolher pelo laudo do milho

Argila, parede de levedura ou enzima: o tipo certo depende da toxina presente no milho, da evidência em animais e do registro no MAPA.

Por José Evangelista

· 8 min de leitura

Placas com pó de argila, levedura e enzima ao lado de amostra de milho moído em bancada de laboratório
Imagem gerada por IA

O adsorvente de micotoxinas se escolhe pela toxina presente na matéria-prima, não pelo nome comercial. Argilas como a bentonita têm boa evidência contra aflatoxinas e resultado fraco contra zearalenona, desoxinivalenol (DON, ou vomitoxina) e fumonisinas, para as quais a biotransformação enzimática ou microbiana tem mais respaldo. Antes de comparar fornecedores, a fábrica precisa do laudo do milho, de evidência em animais para a toxina-alvo e do registro do produto no Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA).

Adsorvente, biotransformador e "suporte": o que cada um faz

O mercado chama tudo de "antimicotoxinas", mas a revisão encomendada pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) em 2009 separa duas estratégias: ligar a toxina ou degradá-la.

  • Adsorventes (ligantes): fixam a micotoxina no trato digestivo em um complexo eliminado nas fezes. Só funcionam se a molécula tiver afinidade pelo ligante. Inorgânicos: argilas como bentonita e montmorilonita, aluminossilicatos de sódio e cálcio hidratados (HSCAS), zeólitas e carvão ativado. Orgânicos: paredes de levedura, ricas em glucomananos e betaglucanos, e fibras.

  • Biotransformadores: enzimas ou microrganismos que convertem a micotoxina em metabólito menos tóxico, via usada para toxinas pouco adsorvíveis.

  • Componentes de suporte: extratos vegetais, antioxidantes e compostos com proposta de proteção hepática ou imunológica. Atuam nos efeitos, sem retirar a toxina. Muitos produtos combinam os três grupos, e cada componente precisa de justificativa própria.

Qual tipo funciona para qual micotoxina

Aflatoxinas. É onde as argilas têm melhor histórico. Na União Europeia (UE), o Regulamento de Execução nº 1060/2013 autorizou uma bentonita com no mínimo 70% de esmectita (montmorilonita dioctaédrica) como ligante de aflatoxina B1 para ruminantes, aves e suínos, com alegação restrita a essa toxina.

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Zearalenona, DON e fumonisinas. Argilas convencionais adsorvem pouco ou de forma inconsistente essas toxinas de Fusarium. Em ensaio in vitro que simulou o trato digestivo de monogástricos (Toxins, 2019), dez aditivos com alegação "multimicotoxina" foram comparados. Nove deles ligaram aflatoxina B1 de forma moderada (44% a 58%) e menos de 35% de zearalenona, fumonisina B1, ocratoxina A e toxina T-2. Só um, de parede de levedura modificada, ligou mais de 50% de cada toxina. Paredes de levedura e glucomananos têm resultados variáveis entre produtos e estudos in vivo.

Biotransformação. Para fumonisinas, a UE autorizou em 2014 (Regulamento nº 1115/2014) uma esterase que hidrolisa a fumonisina B1 em composto menos tóxico, para suínos, com eficácia medida pela relação esfinganina/esfingosina, um biomarcador de exposição. Para tricotecenos como o DON, há cepa bacteriana autorizada no mesmo grupo funcional europeu.

Critérios para escolher o adsorvente de micotoxinas

Perfil de contaminação primeiro. O ponto de partida é a análise do milho e dos coprodutos por toxina, com método rápido no recebimento e confirmação periódica por cromatografia. Sem ela, a escolha vira aposta.

Evidência in vivo para a toxina-alvo. Testes de adsorção em tampão superestimam o efeito, porque a ligação muda com o pH, a ração e as enzimas digestivas. No estudo de 2019, a adsorção foi maior em pH 3 (estômago) do que em pH 7 (intestino) e caiu no modelo digestivo completo para quase todos os produtos. Peça ensaios na espécie de interesse, com biomarcadores ou desempenho, na dose recomendada.

Dose em kg/t. Vale a dose usada nos estudos que sustentam a alegação; ela varia por produto, espécie e desafio. Argilas ocupam espaço na fórmula sem aportar nutrientes. Para a bentonita, o regulamento europeu de 2013 fixou teor máximo de 20 kg/t de ração completa.

Interações com nutrientes e medicamentos. Ensaio in vitro publicado na Animals em 2021 encontrou adsorção de vitamina E entre 46% e 62% por bentonita e montmorilonita. A autorização europeia da bentonita manda evitar uso simultâneo com macrolídeos e, em aves, com o anticoccidiano robenidina.

Estabilidade. Enzimas e microrganismos podem perder atividade na peletização ou na extrusão. O MAPA pede, para registro, estudo de estabilidade e, se houver indicação para esses processos, estudo específico.

Pureza da argila. Argilas são minerais extraídos e podem trazer dioxinas e metais pesados; a legislação europeia fixa limite de dioxinas para aditivos aglomerantes e antiaglomerantes, grupo que inclui argilas. Exija laudo por lote de dioxinas e de chumbo, arsênio, cádmio e mercúrio.

O que avaliar

Por que importa

O que perguntar ao fornecedor

Toxina-alvo

Cada mecanismo atende toxinas diferentes

Qual toxina consta na alegação registrada?

Evidência in vivo

In vitro superestima a eficácia

Há ensaio na minha espécie, com que dose?

Dose (kg/t)

Define custo e espaço na fórmula

É a dose testada nos estudos?

Interações

Argilas podem reter vitaminas e medicamentos

Há dados com vitaminas e anticoccidianos?

Estabilidade térmica

Enzimas e microrganismos sofrem com calor

Há recuperação medida após peletização?

Contaminantes

Argilas podem conter dioxinas e metais

Há laudo por lote?

Registro

Comprova avaliação pelo MAPA

Qual o número de registro?

Na prática: perguntas para fazer ao fornecedor

  • O produto é adsorvente, biotransformador, suporte ou uma combinação? Qual componente atua em cada toxina?

  • Qual é o número de registro no MAPA e qual alegação de uso foi aprovada?

  • Quais estudos in vivo sustentam a eficácia na espécie e na fase que vou alimentar?

  • Os testes in vitro usaram pH ácido e neutro e matriz de ração?

  • O produto resiste à temperatura da minha peletizadora ou extrusora?

  • Qual o laudo de dioxinas e metais pesados do lote e com que frequência é emitido?

  • Qual a dose para o nível de contaminação que meu laudo indica?

O limite do aditivo e o papel da norma

Nenhum adsorvente de micotoxinas corrige milho muito contaminado. A primeira defesa é a amostragem correta, a análise por toxina e a segregação de lotes na moega, como detalha a matéria do FeedConecta sobre recebimento de milho. O aditivo reduz risco residual e não autoriza aceitar carga fora da especificação.

No Brasil, a Instrução Normativa (IN) MAPA nº 13/2004 classifica os aditivos em tecnológicos, sensoriais, nutricionais, zootécnicos e anticoccidianos e define adsorvente, entre os tecnológicos, como "substância capaz de fixar moléculas". Em julho de 2025, a Portaria SDA/MAPA nº 1.334 pôs em consulta pública uma nova portaria de aditivos que revoga a IN 13/2004 e cria a subcategoria "adsorvente ou sequestrante e biotransformador de micotoxinas". A redação não localizou a publicação da norma definitiva; o tema está em revisão, e a fábrica deve confirmar no MAPA a base vigente. Para cães e gatos, a Portaria SDA/MAPA nº 1.412/2025 fixa 10 µg/kg de aflatoxina B1 e 20 µg/kg de aflatoxinas totais, em vigor desde 1º de julho de 2026.

Perguntas frequentes

O que é adsorvente de micotoxinas? É um aditivo que se liga às micotoxinas no trato digestivo do animal e forma um complexo eliminado nas fezes, reduzindo a absorção da toxina. Os principais grupos são argilas, como bentonita e aluminossilicatos, e paredes de levedura. No Brasil, adsorventes são aditivos tecnológicos e precisam de registro no MAPA, com alegação de uso aprovada para a toxina-alvo.

Bentonita funciona contra todas as micotoxinas? Não. A bentonita e outras argilas têm boa evidência contra aflatoxinas, mas adsorvem pouco zearalenona, DON e fumonisinas. Na União Europeia, a bentonita foi autorizada como ligante em 2013 com alegação restrita à aflatoxina B1. Para toxinas de Fusarium, a biotransformação enzimática ou microbiana tem mais respaldo. A escolha parte do laudo da matéria-prima.

Qual a dose de adsorvente de micotoxinas na ração? Depende do produto, da espécie e do nível de contaminação. A dose correta é a testada nos estudos in vivo que sustentam o registro, informada pelo fabricante em kg/t. Argilas costumam exigir inclusões maiores que enzimas. Na União Europeia, o regulamento de 2013 fixou para a bentonita teor máximo de 20 kg/t de ração completa.

Adsorvente substitui a análise do milho? Não. O aditivo reduz o risco residual, mas não corrige lote muito contaminado. A fábrica precisa amostrar corretamente, analisar cada toxina, segregar lotes e definir limites internos por espécie e fase. Sem o laudo, não há como escolher mecanismo nem dose. Diluir milho contaminado em milho limpo espalha o problema.

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Referências

  • adsorvente de micotoxinas
  • antimicotoxinas
  • bentonita
  • aflatoxina
  • fumonisina
  • zearalenona
  • aditivo para ração
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