Sete aditivos em 4,7 kg: o que cada um faz e quando pagam
Pacote de aditivos ocupa 0,47% da massa e cerca de 7% do custo de três rações de postura; veja como medir se ele se paga
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Série Raio-X da Fórmula · Episódio 10 de 10 · Aditivos
As três rações de postura analisadas nesta série levam os mesmos sete aditivos, nas mesmas doses: 4,7 kg por tonelada, 0,47% da massa. Com os preços de referência usados na formulação analisada (jun/2026), o pacote custa R$ 110,30/t, entre 6,7% e 7,3% do custo da ração. É mais do que calcário e fosfato juntos, e a pergunta do gestor é direta: o que cada produto faz e como saber se ele se paga.
Aditivo (nome genérico) | Dose (g/t) | R$/t | Função principal |
|---|---|---|---|
Acidificante (blend de ácidos orgânicos) | 1.500 | 28,83 | Reduzir pH e carga de bactérias indesejáveis |
Adsorvente de micotoxinas | 2.000 | 28,40 | Ligar micotoxinas no trato digestivo |
Probiótico (Bacillus spp.) | 500 | 15,61 | Equilíbrio da microbiota intestinal |
Fonte vegetal de vitamina D (glicosídeos de D3) | 100 | 13,96 | Metabolismo de cálcio, osso e casca |
Aditivo fitogênico | 160 | 10,66 | Ação antimicrobiana e antioxidante, digestão |
Butirato | 300 | 7,98 | Energia para a mucosa intestinal |
Enzima (tipo não confirmado) | 140 | 4,90 | Aumentar a digestibilidade de nutrientes |
Total | 4.700 | 110,30 |
Fonte: relatório de formulação cedido por um nutricionista que atua no mercado de postura. Preços variam por região e data.
O que cada um faz
Probiótico de Bacillus. São esporos bacterianos que germinam no intestino, competem com patógenos por espaço e nutrientes e produzem enzimas e metabólitos. Uma meta-análise com 47 estudos em poedeiras (Sjofjan et al., 2021) encontrou, em média, aumento da produção de ovos e da espessura da casca e melhora na relação ração:ovo, sem efeito no peso do ovo. A média reúne cepas, doses e condições sanitárias diferentes.
Enzima. O relatório não identifica o tipo. Uma leitura possível, dada a dose de 140 g/t e o fosfato baixo (5 kg/t ou zero), é que seja fitase, que libera fósforo do fitato dos grãos e permite reduzir fosfato. Se for carboidrase, o alvo seriam os polissacarídeos não amiláceos de sorgo, girassol e soja. É hipótese.
Fonte vegetal de vitamina D. Folhas de Solanum glaucophyllum contêm glicosídeos de 1,25-di-hidroxicolecalciferol, a forma ativa da vitamina D3, que dispensa as hidroxilações do fígado e do rim. O interesse em postura está no metabolismo de cálcio para osso e casca. Em avaliação de um produto padronizado (Bachmann et al., 2013), um bioensaio de casca em codornas confirmou a atividade, com biodisponibilidade estimada em cerca de 15%. O premix costuma trazer vitamina D3; a composição do premix desta fórmula não foi informada.
Acidificante. Blends de ácidos orgânicos reduzem o pH da ração e do trato digestivo anterior e têm efeito antimicrobiano sobre enterobactérias. Alguns também atuam como conservantes da ração. O relatório não detalha quais ácidos compõem o blend.
Butirato. O ácido butírico é fonte de energia para as células da mucosa intestinal e está associado à integridade da barreira intestinal. Costuma ser fornecido em formas protegidas (sais revestidos ou glicerídeos) para chegar ao intestino.
Adsorvente de micotoxinas. Liga micotoxinas no trato digestivo e reduz sua absorção. A revisão da Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA, 2009) mostra que a eficácia depende da toxina: argilas funcionam bem para aflatoxinas e menos para outras micotoxinas. Com 574 a 596 kg de milho e sorgo por tonelada, o risco existe; a pergunta é qual toxina o laudo dos grãos aponta.
Fitogênico. Óleos essenciais e extratos vegetais com ação antimicrobiana, antioxidante e de estímulo às secreções digestivas. A composição varia muito entre produtos, o que dificulta comparar resultados.
Por que questionar o pacote
A primeira razão é a sobreposição. Probiótico, acidificante, butirato e fitogênico atuam sobre o mesmo alvo, a saúde intestinal. A literatura testa esses produtos em geral isoladamente; o efeito de quatro deles juntos não é a soma dos efeitos individuais.
A segunda é a evidência variável. Respostas dependem de cepa, dose, idade do lote, linhagem e desafio sanitário. Em granjas com bom status sanitário, a margem de ganho tende a ser menor.
A terceira é o custo. Retirar o pacote reduziria o custo da ração em cerca de 7%. Na ponta do lápis, o pacote precisa melhorar a conversão por dúzia em perto de 7%, ou entregar o equivalente em menos ovos trincados, menor mortalidade e maior produção. Diferenças desse tamanho são difíceis de enxergar na granja comercial, onde galpões, idades e lotes variam entre si.
Interação com o processo
A peletização expõe a ração a vapor e temperaturas de condicionamento que costumam passar de 70 °C. Esporos de Bacillus resistem melhor ao calor que bactérias na forma vegetativa, e enzimas variam muito em termoestabilidade; a recuperação após o processo deve ser comprovada pelo fornecedor para cada condição. Na avicultura de postura, a ração farelada é prática comum, o que reduz esse risco. O relatório não informa a forma física desta ração.
Doses de 100 a 160 g/t exigem pré-mistura com veículo antes do misturador principal, assunto do episódio 9 da série.
O que diz o registro no MAPA
A fiscalização de produtos para alimentação animal segue a Lei nº 6.198/1974, regulamentada pelo Decreto nº 12.031/2024. A Instrução Normativa nº 13/2004 classifica os aditivos em tecnológicos, sensoriais, nutricionais, zootécnicos e anticoccidianos. Entre os zootécnicos estão os digestivos e os equilibradores da flora, grupo cujo anexo técnico cita enzimas, probióticos, prebióticos e acidificantes; adsorventes estão entre os tecnológicos e vitaminas, entre os nutricionais. Em julho de 2025, a Portaria SDA/MAPA nº 1.334 abriu consulta pública de uma nova portaria sobre classificação, avaliação de segurança e registro de aditivos, que revogaria a IN 13/2004. Confirme no Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) a norma em vigor antes de qualquer decisão regulatória. Na compra, exija o registro do produto e verifique se a alegação de uso corresponde à registrada.
Como testar o retorno
O caminho é o ensaio de campo com lotes pareados: mesma linhagem e idade, galpões semelhantes, mesmo manejo e ração idêntica, exceto pelo aditivo em teste. Retirar um produto por vez permite atribuir o efeito. Repetir em mais de um par de galpões e inverter os tratamentos reduz o peso das diferenças entre instalações. O período deve cobrir várias semanas e a fase em que o aditivo deveria agir.
Na prática: o que o formulador deve observar
Pedir a cada fornecedor o número de registro, a composição e os ensaios em poedeiras com cepa e dose iguais às usadas.
Mapear sobreposições: quantos produtos do pacote miram a saúde intestinal.
Basear o uso do adsorvente em laudos de micotoxinas dos grãos, por toxina.
Confirmar a enzima e, se for fitase, a matriz de fósforo usada na formulação.
Testar com lotes pareados medindo produção, peso e massa de ovo, qualidade de casca, ovos trincados, conversão por dúzia e por kg de ovo, mortalidade e consumo.
Registrar o custo por dúzia com e sem o aditivo, não só o R$/t.
Para o gestor, R$ 110,30/t é uma decisão recorrente. Manter o pacote sem medição significa pagar 7% da ração por um efeito que ninguém confirmou na própria granja. O teste com lotes pareados custa pouco perto disso.
Leia também na série Raio-X da Fórmula:
Onde está o dinheiro: o custo de cada ingrediente (Episódio 2)
Sorgo na ração de postura: energia, tanino e cor da gema (Episódio 4)
50 gramas por tonelada: como dosar microingredientes (Episódio 9)
No próximo Raio-X: este é o último episódio da série; para rever a fórmula inteira, comece pelo Episódio 1, "Raio-X de uma ração de postura: a fórmula comentada".
Referências
Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). Instrução Normativa SARC nº 13, de 30 de novembro de 2004 (regulamento técnico de aditivos para alimentação animal): https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/insumos-agropecuarios/insumos-pecuarios/alimentacao-animal/arquivos-alimentacao-animal/legislacao/instrucao-normativa-no-13-de-30-de-novembro-de-2004.pdf ; Portaria SDA/MAPA nº 1.334, de 21 de julho de 2025 (consulta pública): https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/insumos-agropecuarios/insumos-pecuarios/alimentacao-animal/copy_of_PORTARIASDA_MAPAN1.334DE21DEJULHODE2025PORTARIASDA_MAPAN1.334DE21DEJULHODE2025DOU.pdf ; Decreto nº 12.031, de 28 de maio de 2024: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2024/decreto/D12031.htm
Sjofjan, O. et al. The effects of probiotics on the performance, egg quality and blood parameters of laying hens: a meta-analysis. Journal of Animal and Feed Sciences, 30(1), 11–18, 2021. https://doi.org/10.22358/jafs/133432/2021
Bachmann, H. et al. The efficacy of a standardised product from dried leaves of Solanum glaucophyllum as source of 1,25-dihydroxycholecalciferol for poultry. British Poultry Science, 54(5), 642–652, 2013.
EFSA. Review of mycotoxin-detoxifying agents used as feed additives: mode of action, efficacy and feed/food safety. EFSA Supporting Publications, 2009. https://hal.inrae.fr/hal-02823453
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