Recebimento de milho: amostragem, umidade e micotoxinas
Amostragem bem feita, análise rápida de micotoxinas e segregação de lotes na moega definem o milho que chega à fórmula.
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O milho é o ingrediente de maior volume na maioria das rações de aves e suínos, e a decisão sobre cada carga costuma ser tomada em poucos minutos, com o caminhão na balança no momento do recebimento de milho. Um erro de amostragem nessa etapa contamina silos inteiros e chega à fórmula como energia superestimada ou como micotoxina não detectada. O procedimento de recebimento é, por isso, um controle de processo e de custo.
Amostragem: onde a maior parte do erro acontece
A análise mais precisa do laboratório não corrige uma amostra mal coletada. Micotoxinas se distribuem de forma muito heterogênea na massa de grãos: poucos grãos muito contaminados concentram a maior parte da toxina. Por isso, a variância de amostragem tende a ser a maior parcela do erro total, acima da variância de preparo e da analítica.
Boas práticas de coleta em carga a granel:
usar calador (sonda) de comprimento suficiente para alcançar o fundo da carroceria, com aberturas ao longo do tubo;
coletar em vários pontos distribuídos pela carga, seguindo um padrão fixo definido no procedimento da fábrica (cantos, centro e pontos intermediários), em número proporcional ao tamanho da carroceria;
reunir as subamostras em uma amostra composta, homogeneizar e reduzir com quarteador ou divisor, sem "escolher" grãos;
moer a amostra de trabalho inteira antes de retirar a alíquota para micotoxinas, quando o método exigir;
identificar e guardar uma contraprova lacrada por lote.
A coleta automática por sonda pneumática reduz a variação entre operadores, mas o padrão de pontos e a manutenção do equipamento precisam constar do procedimento.
Umidade, ardidos, impurezas e classificação
O Regulamento Técnico do Milho (Instrução Normativa MAPA nº 60/2011, alterada pela IN nº 18/2012) define os critérios de classificação comercial. Ele estabelece 14,0% como umidade tecnicamente recomendada para comercialização e fixa tolerâncias por tipo:
Defeito (% máx.) | Tipo 1 | Tipo 2 | Tipo 3 |
|---|---|---|---|
Ardidos | 1,00 | 2,00 | 3,00 |
Total de avariados | 6,00 | 10,00 | 15,00 |
Quebrados | 3,00 | 4,00 | 5,00 |
Matérias estranhas e impurezas | 1,00 | 1,50 | 2,00 |
Carunchados | 2,00 | 3,00 | 4,00 |
Fonte: IN MAPA nº 60/2011, conforme Sistema de Legislação do MAPA (Sislegis).
A classificação comercial e a especificação da fábrica são coisas diferentes. Muitas empresas adotam, em contrato com fornecedores, limites internos mais estreitos que os do tipo comercial, sobretudo para ardidos, porque o grão ardido está associado a fermentação e desenvolvimento de fungos. O teor de ardidos não mede micotoxina: um lote com poucos ardidos pode estar contaminado, e o inverso também ocorre. A classificação física funciona como triagem, sem substituir a análise.
A umidade deve ser medida em equipamento calibrado contra o método de estufa, com verificação periódica registrada. Umidade acima da faixa de armazenagem segura exige secagem antes do silo; a faixa exata depende do tempo previsto de estocagem, da temperatura e do tipo de silo.
Micotoxinas: o que procurar e com que método
No milho brasileiro, as micotoxinas de maior atenção são as aflatoxinas (produzidas por Aspergillus), as fumonisinas, a zearalenona e o desoxinivalenol (DON, ou vomitoxina), estas últimas associadas a Fusarium. A sensibilidade varia por espécie e fase: aves e suínos jovens, matrizes e peixes costumam ser mais sensíveis; a zearalenona preocupa em reprodução de suínos.
Os métodos dividem-se em dois grupos:
Métodos rápidos (tiras de fluxo lateral e kits ELISA, ensaio imunoenzimático): resultado em minutos, adequados à decisão na moega. Exigem extração padronizada, controle de temperatura e de validade dos kits e verificação periódica contra laboratório.
Métodos de referência (cromatografia líquida, em especial LC-MS/MS, cromatografia acoplada à espectrometria de massas): quantificam várias toxinas ao mesmo tempo com maior exatidão. Servem para confirmar resultados, validar os testes rápidos e monitorar a safra.
A espectroscopia no infravermelho próximo (NIR) estima umidade, proteína, amido e outros parâmetros de composição com rapidez. Aplicações de NIR para micotoxinas existem, mas dependem de calibrações específicas, com desempenho que precisa ser comprovado para cada matriz; o uso mais seguro do NIR no recebimento continua sendo a composição nutricional.
Limites legais. Em 2025, o MAPA publicou a Portaria SDA/MAPA nº 1.412, de 3 de outubro de 2025, com limites máximos de aflatoxinas para alimentos de cães e gatos: 10 µg/kg para aflatoxina B1 e 20 µg/kg para aflatoxinas totais (B1+B2+G1+G2), em vigor desde 1º de julho de 2026. Para matérias-primas e rações das demais espécies, a fábrica deve confirmar com o MAPA a norma e o limite aplicáveis e definir, no programa de autocontrole, limites internos por espécie e fase, normalmente mais restritivos para categorias sensíveis.
Segregação, secagem e armazenagem
A decisão na moega deve ter três saídas possíveis: aceitar, aceitar com destino restrito ou recusar. Para que a segunda opção funcione, a fábrica precisa de silos ou células separadas para lotes com resultado intermediário, destinados a categorias menos sensíveis conforme a política técnica da empresa. Misturar lote contaminado com lote limpo para "diluir" a toxina não resolve o problema: espalha o contaminante por todo o estoque e não deve fazer parte da política de qualidade.
Na armazenagem, o objetivo é impedir a produção de micotoxina depois do recebimento:
secar até umidade compatível com o tempo de estocagem;
limpar o grão (pré-limpeza) para retirar finos, impurezas e quebrados, onde se concentram fungos;
usar termometria e aeração para evitar bolsões de aquecimento e migração de umidade;
controlar insetos, que abrem porta para fungos;
aplicar o princípio "primeiro que entra, primeiro que sai" e registrar a origem de cada célula.
Adsorventes: ferramenta com limites
Adsorventes (argilas, como aluminossilicatos e bentonitas), produtos à base de parede de levedura e aditivos com ação enzimática ou microbiana de biotransformação são usados para reduzir a absorção ou degradar micotoxinas no trato digestivo. A eficácia varia conforme a toxina: argilas tendem a ter boa afinidade por aflatoxinas e desempenho mais limitado contra toxinas de Fusarium, para as quais a biotransformação tem mais respaldo. O aditivo precisa ter registro no MAPA, alegação comprovada para a toxina-alvo e dose compatível com o desafio. Ele complementa o controle de recebimento e não autoriza aceitar lote fora de especificação.
O impacto no formulador
Milho com alto teor de ardidos e avariados costuma ter energia metabolizável menor que a da matriz nutricional padrão, porque fungos consomem amido e gordura. Grãos quebrados e impurezas também reduzem densidade nutricional. Se o formulador usa um valor fixo de tabela, a ração sai com energia abaixo do previsto, e o efeito aparece em conversão alimentar.
Na prática: o que o formulador deve observar
Receber da qualidade, por lote ou silo, umidade, ardidos, avariados e resultado de micotoxinas antes de liberar o milho para a fórmula.
Ajustar a matriz de energia e nutrientes do milho pela composição real (NIR calibrado ou análises periódicas), em vez de usar valor fixo de tabela.
Definir limites internos de micotoxinas por espécie e fase e vincular cada silo às categorias de ração permitidas.
Considerar o efeito somado de micotoxinas vindas de outros ingredientes (farelos, coprodutos de milho, DDGS) na ração final.
Prever o uso de aditivo antimicotoxina com base no perfil de toxinas detectado, não por rotina indiscriminada.
Acompanhar indicadores de campo (desempenho, lesões, problemas reprodutivos) junto com os dados de recebimento.
Decisão para o gestor
O investimento que mais rende no recebimento de milho é estrutural: calador adequado e procedimento de coleta treinado, kits rápidos com verificação laboratorial, ao menos uma célula de silo para segregação e termometria na armazenagem. Sem capacidade de segregar, a fábrica fica com duas opções ruins na moega, recusar a carga ou contaminar o estoque. Convém definir no contrato com fornecedores os parâmetros e o método de amostragem, para que a recusa de carga tenha base técnica e documental.
Referências
Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). Instrução Normativa nº 60, de 22 de dezembro de 2011 — Regulamento Técnico do Milho. Sislegis: https://sistemasweb.agricultura.gov.br/sislegis/action/detalhaAto.do?method=visualizarAtoPortalMapa&chave=1739574738
MAPA. Portaria SDA/MAPA nº 1.412, de 3 de outubro de 2025 — limites máximos de micotoxinas em alimentos para cães e gatos: https://wikisda.agricultura.gov.br/dipoa_baselegal_aa/port_1412-2025_micotoxinas_alimentos_c%C3%A3es_e_gatos.pdf
Embrapa Agroindústria Tropical. Micotoxinas: importância na alimentação e na saúde humana e animal (Documentos 110, 2007): https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/bitstream/doc/427374/1/Dc110.pdf
LAMIC/UFSM. Legislação Brasil — micotoxinas: https://www.lamic.ufsm.br/site/pt/legislacoes/legislacao-brasil
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