Ir para o conteúdo
FeedConecta

Recebimento de milho: amostragem, umidade e micotoxinas

Amostragem bem feita, análise rápida de micotoxinas e segregação de lotes na moega definem o milho que chega à fórmula.

Por José Evangelista

· 7 min de leitura

Calador de aço inserido em carga de milho em caminhão, com silos da fábrica de ração ao fundo
Imagem gerada por IA

O milho é o ingrediente de maior volume na maioria das rações de aves e suínos, e a decisão sobre cada carga costuma ser tomada em poucos minutos, com o caminhão na balança no momento do recebimento de milho. Um erro de amostragem nessa etapa contamina silos inteiros e chega à fórmula como energia superestimada ou como micotoxina não detectada. O procedimento de recebimento é, por isso, um controle de processo e de custo.

Amostragem: onde a maior parte do erro acontece

A análise mais precisa do laboratório não corrige uma amostra mal coletada. Micotoxinas se distribuem de forma muito heterogênea na massa de grãos: poucos grãos muito contaminados concentram a maior parte da toxina. Por isso, a variância de amostragem tende a ser a maior parcela do erro total, acima da variância de preparo e da analítica.

Boas práticas de coleta em carga a granel:

Publicidade

Anuncie aqui no FeedConecta
  • usar calador (sonda) de comprimento suficiente para alcançar o fundo da carroceria, com aberturas ao longo do tubo;

  • coletar em vários pontos distribuídos pela carga, seguindo um padrão fixo definido no procedimento da fábrica (cantos, centro e pontos intermediários), em número proporcional ao tamanho da carroceria;

  • reunir as subamostras em uma amostra composta, homogeneizar e reduzir com quarteador ou divisor, sem "escolher" grãos;

  • moer a amostra de trabalho inteira antes de retirar a alíquota para micotoxinas, quando o método exigir;

  • identificar e guardar uma contraprova lacrada por lote.

A coleta automática por sonda pneumática reduz a variação entre operadores, mas o padrão de pontos e a manutenção do equipamento precisam constar do procedimento.

Umidade, ardidos, impurezas e classificação

O Regulamento Técnico do Milho (Instrução Normativa MAPA nº 60/2011, alterada pela IN nº 18/2012) define os critérios de classificação comercial. Ele estabelece 14,0% como umidade tecnicamente recomendada para comercialização e fixa tolerâncias por tipo:

Defeito (% máx.)

Tipo 1

Tipo 2

Tipo 3

Ardidos

1,00

2,00

3,00

Total de avariados

6,00

10,00

15,00

Quebrados

3,00

4,00

5,00

Matérias estranhas e impurezas

1,00

1,50

2,00

Carunchados

2,00

3,00

4,00

Fonte: IN MAPA nº 60/2011, conforme Sistema de Legislação do MAPA (Sislegis).

A classificação comercial e a especificação da fábrica são coisas diferentes. Muitas empresas adotam, em contrato com fornecedores, limites internos mais estreitos que os do tipo comercial, sobretudo para ardidos, porque o grão ardido está associado a fermentação e desenvolvimento de fungos. O teor de ardidos não mede micotoxina: um lote com poucos ardidos pode estar contaminado, e o inverso também ocorre. A classificação física funciona como triagem, sem substituir a análise.

A umidade deve ser medida em equipamento calibrado contra o método de estufa, com verificação periódica registrada. Umidade acima da faixa de armazenagem segura exige secagem antes do silo; a faixa exata depende do tempo previsto de estocagem, da temperatura e do tipo de silo.

Micotoxinas: o que procurar e com que método

No milho brasileiro, as micotoxinas de maior atenção são as aflatoxinas (produzidas por Aspergillus), as fumonisinas, a zearalenona e o desoxinivalenol (DON, ou vomitoxina), estas últimas associadas a Fusarium. A sensibilidade varia por espécie e fase: aves e suínos jovens, matrizes e peixes costumam ser mais sensíveis; a zearalenona preocupa em reprodução de suínos.

Os métodos dividem-se em dois grupos:

  • Métodos rápidos (tiras de fluxo lateral e kits ELISA, ensaio imunoenzimático): resultado em minutos, adequados à decisão na moega. Exigem extração padronizada, controle de temperatura e de validade dos kits e verificação periódica contra laboratório.

  • Métodos de referência (cromatografia líquida, em especial LC-MS/MS, cromatografia acoplada à espectrometria de massas): quantificam várias toxinas ao mesmo tempo com maior exatidão. Servem para confirmar resultados, validar os testes rápidos e monitorar a safra.

A espectroscopia no infravermelho próximo (NIR) estima umidade, proteína, amido e outros parâmetros de composição com rapidez. Aplicações de NIR para micotoxinas existem, mas dependem de calibrações específicas, com desempenho que precisa ser comprovado para cada matriz; o uso mais seguro do NIR no recebimento continua sendo a composição nutricional.

Limites legais. Em 2025, o MAPA publicou a Portaria SDA/MAPA nº 1.412, de 3 de outubro de 2025, com limites máximos de aflatoxinas para alimentos de cães e gatos: 10 µg/kg para aflatoxina B1 e 20 µg/kg para aflatoxinas totais (B1+B2+G1+G2), em vigor desde 1º de julho de 2026. Para matérias-primas e rações das demais espécies, a fábrica deve confirmar com o MAPA a norma e o limite aplicáveis e definir, no programa de autocontrole, limites internos por espécie e fase, normalmente mais restritivos para categorias sensíveis.

Segregação, secagem e armazenagem

A decisão na moega deve ter três saídas possíveis: aceitar, aceitar com destino restrito ou recusar. Para que a segunda opção funcione, a fábrica precisa de silos ou células separadas para lotes com resultado intermediário, destinados a categorias menos sensíveis conforme a política técnica da empresa. Misturar lote contaminado com lote limpo para "diluir" a toxina não resolve o problema: espalha o contaminante por todo o estoque e não deve fazer parte da política de qualidade.

Na armazenagem, o objetivo é impedir a produção de micotoxina depois do recebimento:

  • secar até umidade compatível com o tempo de estocagem;

  • limpar o grão (pré-limpeza) para retirar finos, impurezas e quebrados, onde se concentram fungos;

  • usar termometria e aeração para evitar bolsões de aquecimento e migração de umidade;

  • controlar insetos, que abrem porta para fungos;

  • aplicar o princípio "primeiro que entra, primeiro que sai" e registrar a origem de cada célula.

Adsorventes: ferramenta com limites

Adsorventes (argilas, como aluminossilicatos e bentonitas), produtos à base de parede de levedura e aditivos com ação enzimática ou microbiana de biotransformação são usados para reduzir a absorção ou degradar micotoxinas no trato digestivo. A eficácia varia conforme a toxina: argilas tendem a ter boa afinidade por aflatoxinas e desempenho mais limitado contra toxinas de Fusarium, para as quais a biotransformação tem mais respaldo. O aditivo precisa ter registro no MAPA, alegação comprovada para a toxina-alvo e dose compatível com o desafio. Ele complementa o controle de recebimento e não autoriza aceitar lote fora de especificação.

O impacto no formulador

Milho com alto teor de ardidos e avariados costuma ter energia metabolizável menor que a da matriz nutricional padrão, porque fungos consomem amido e gordura. Grãos quebrados e impurezas também reduzem densidade nutricional. Se o formulador usa um valor fixo de tabela, a ração sai com energia abaixo do previsto, e o efeito aparece em conversão alimentar.

Na prática: o que o formulador deve observar

  • Receber da qualidade, por lote ou silo, umidade, ardidos, avariados e resultado de micotoxinas antes de liberar o milho para a fórmula.

  • Ajustar a matriz de energia e nutrientes do milho pela composição real (NIR calibrado ou análises periódicas), em vez de usar valor fixo de tabela.

  • Definir limites internos de micotoxinas por espécie e fase e vincular cada silo às categorias de ração permitidas.

  • Considerar o efeito somado de micotoxinas vindas de outros ingredientes (farelos, coprodutos de milho, DDGS) na ração final.

  • Prever o uso de aditivo antimicotoxina com base no perfil de toxinas detectado, não por rotina indiscriminada.

  • Acompanhar indicadores de campo (desempenho, lesões, problemas reprodutivos) junto com os dados de recebimento.

Decisão para o gestor

O investimento que mais rende no recebimento de milho é estrutural: calador adequado e procedimento de coleta treinado, kits rápidos com verificação laboratorial, ao menos uma célula de silo para segregação e termometria na armazenagem. Sem capacidade de segregar, a fábrica fica com duas opções ruins na moega, recusar a carga ou contaminar o estoque. Convém definir no contrato com fornecedores os parâmetros e o método de amostragem, para que a recusa de carga tenha base técnica e documental.

Referências

  • recebimento de milho
  • micotoxinas
  • aflatoxinas
  • grãos ardidos
  • amostragem de grãos
  • fábrica de ração
  • qualidade de matéria-prima
Usamos apenas cookies necessários para o login e para limitar a repetição de anúncios, sem rastreamento de terceiros. Saiba mais na política de privacidade.