Por que só a fórmula B levou lisina e triptofano
Girassol e farinha de carne no lugar de farelo de soja mudaram o perfil de aminoácidos da fórmula B, e o otimizador completou a conta com sintéticos.
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Série Raio-X da Fórmula · Episódio 7 de 10 · Lisina e Triptofano
Das três fórmulas de postura analisadas nesta série, apenas a B recebeu L-lisina (0,24 kg/t) e L-triptofano (0,05 kg/t, ou 50 gramas por tonelada). O recorte da tabela aponta o motivo: B tem menos farelo de soja, mais farelo de girassol e é a única com farinha de carne. A troca baixou o custo, mudou o perfil de aminoácidos e o otimizador de custo mínimo fechou a diferença com sintéticos.
Ingrediente | R$/kg | A (kg/t) | B (kg/t) | C (kg/t) |
|---|---|---|---|---|
Farelo de soja | 1,720 | 178 | 151 | 145 |
Soja integral | 2,140 | 79 | 77 | 136 |
Farelo de girassol (28% PB) | 0,980 | 35 | 43 | 20 |
Farinha de carne (42% PB) | 1,880 | – | 23 | – |
DL-metionina | 29,000 | 1,70 | 1,72 | 2,30 |
L-lisina 78% | 9,130 | – | 0,24 | – |
L-triptofano | 28,590 | – | 0,05 | – |
Custo da fórmula (R$/kg) | 1,587 | 1,516 | 1,643 |
Preços de referência usados na formulação analisada (jun/2026); variam por região e data.
Metionina vem primeiro, nas três fórmulas
Em rações de milho e farelo de soja para aves, a metionina é o primeiro aminoácido limitante. Para poedeiras, a literatura classifica a metionina como o primeiro limitante, e em algumas dietas como o segundo. O nível de metionina afeta a produção e o peso do ovo. Atender a exigência de aminoácidos sulfurados (metionina e cistina) só com proteína intacta obrigaria a subir a proteína bruta (PB) muito além do necessário para os demais aminoácidos.
Por isso as três fórmulas trazem DL-metionina, entre 1,70 e 2,30 kg/t. A R$ 29,00/kg, ela pesa entre 3,1% e 4,1% do custo da tonelada (R$ 49,30 em A, R$ 49,88 em B e R$ 66,70 em C). A fórmula C, com menos farelo de soja e mais soja integral, usa a maior dose. Uma leitura possível é que C atende a uma exigência mais alta, como a de pico de postura; o relatório não informa a fase.
Lisina e triptofano vêm depois na ordem de limitação. A fórmula sugere que, em A e C, farelo de soja e soja integral bastaram para atender a esses dois aminoácidos.
O que mudou na fórmula B
A fórmula mostra três movimentos em B, comparada com A: 27 kg/t a menos de farelo de soja, 8 kg/t a mais de farelo de girassol e 23 kg/t de farinha de carne, além da retirada do fosfato.
Pelos dados da base Feedipedia, o farelo de soja tem em média 6,2% de lisina na proteína, 1,4% de metionina e 1,4% de triptofano. O farelo de girassol tem cerca de 3,5% de lisina na proteína, pouco mais da metade do farelo de soja, e 2,3% de metionina, valor mais alto que o da soja. Como o girassol usado em B tem 28% de PB, cada quilo dele entrega bem menos lisina que um quilo de farelo de soja.
A farinha de carne tem proteína rica em colágeno, que praticamente não contém triptofano. Ela também é pobre em cistina: em estudo com 19 amostras comerciais avaliadas em frangos de corte, Ravindran e colaboradores (2002) apontaram a cistina como o primeiro limitante da farinha de carne e ossos, e com a menor digestibilidade.
Uma leitura provável do resultado: girassol e farinha de carne repõem a proteína e boa parte da metionina retiradas com o farelo de soja, o que explica a DL-metionina praticamente igual entre A e B. Mas trazem menos lisina e, sobretudo, menos triptofano por unidade de proteína.
Como o otimizador decide: o preço-sombra
A formulação de custo mínimo usa programação linear: o software busca a combinação mais barata que atenda a todas as restrições. Quando uma restrição está "ativa", ou seja, o nutriente está exatamente no mínimo exigido, o programa calcula seu preço-sombra: quanto o custo da fórmula subiria se a exigência aumentasse uma unidade. Uma restrição atendida com folga tem preço-sombra zero.
Em A e C, a lisina e o triptofano provavelmente estavam com folga ou com preço-sombra baixo, e o sintético não se pagava. Em B, depois que girassol e farinha de carne entraram por fornecer proteína (e, no caso da farinha, cálcio e fósforo) a custo menor, a lisina e o triptofano passaram a limitar. Atendê-los com proteína intacta exigiria devolver farelo de soja à fórmula; atendê-los com L-lisina a R$ 9,13/kg e L-triptofano a R$ 28,59/kg custou R$ 2,19 e R$ 1,43 por tonelada. O otimizador escolheu o sintético porque essa era a solução de menor custo, e B terminou R$ 70,47/t mais barata que A.
O relatório de sensibilidade do software também mostra quanto o preço de cada ingrediente fora da fórmula teria de cair para ele entrar.
Proteína ideal para postura
Na proteína ideal, a exigência de cada aminoácido essencial é expressa como proporção da lisina digestível, com relações próprias para cada fase. No Brasil, a principal referência são as Tabelas Brasileiras para Aves e Suínos (Rostagno et al., UFV), cuja 5ª edição, de 2024, traz composição de alimentos com aminoácidos digestíveis e exigências para poedeiras. A edição atualizou o cálculo da exigência de cálcio e incluiu nova equação de exigência de energia líquida para poedeiras leves e semipesadas.
O ponto para a fórmula B é que a decisão de incluir lisina e triptofano só é segura se exigências e ingredientes estiverem na mesma base, de preferência em aminoácidos digestíveis. Uma matriz de farinha de carne em aminoácidos totais superestima o que a ave aproveita.
Os riscos: margem empilhada e qualidade da farinha
O primeiro risco é sobrepor margens de segurança. Quando o formulador aumenta a exigência por precaução, usa coeficientes de digestibilidade conservadores e ainda arredonda os sintéticos para cima, as margens se somam: o custo sobe e o excesso de aminoácidos vira nitrogênio excretado. No outro extremo, sem folga nenhuma, qualquer erro de matriz aparece no peso e na produção de ovos.
O segundo risco é a farinha de carne. No estudo de Ravindran e colaboradores, a PB das amostras variou de 38,5% a 67,2% e as cinzas, de 13,0% a 56,5%. As cinzas foram o único parâmetro químico que se correlacionou de forma consistente com a digestibilidade dos aminoácidos: quanto mais cinza, menor a digestibilidade da maioria deles. Testes de solubilidade proteica e de digestibilidade em pepsina se mostraram pouco sensíveis a essa variação. Um lote com mais osso entrega menos aminoácido digestível do que a matriz prevê.
Na prática: o que o formulador deve observar
Formular lisina, metionina + cistina, treonina e triptofano em base digestível, com matriz e exigência da mesma fonte.
Analisar PB, cinzas, cálcio e fósforo de cada lote de farinha de carne e corrigir a matriz quando sair da faixa contratada.
Revisar o preço-sombra de lisina e triptofano a cada nova rodada de preços.
Evitar empilhar margens de segurança em exigência, digestibilidade e dose.
Garantir pré-mistura ou balança de micro com resolução para 50 g/t de L-triptofano.
A decisão para o gestor
A fórmula B mostra que trocar farelo de soja por ingredientes mais baratos rende economia real, mas transfere parte do risco para o controle de qualidade e para a dosagem de microingredientes. Antes de adotá-la, o gestor deve confirmar que o laboratório analisa cada lote de farinha de carne e que a fábrica dosa 50 g/t com precisão. Sem isso, os R$ 70 por tonelada economizados podem voltar como perda de produção.
Leia também na série Raio-X da Fórmula:
No próximo Raio-X: a fórmula C usa mais que o dobro do sal da fórmula B; o episódio 8 explica como sal e bicarbonato fecham o balanço eletrolítico da poedeira.
Referências
Rostagno, H. S.; Albino, L. F. T. (coord.). Tabelas Brasileiras para Aves e Suínos: composição de alimentos e exigências nutricionais. 5. ed. Viçosa: UFV, 2024.
Ravindran, V.; Hendriks, W. H.; Camden, B. J.; Thomas, D. V.; Morel, P. C. H.; Butts, C. A. Amino acid digestibility of meat and bone meals for broiler chickens. Australian Journal of Agricultural Research, v. 53, n. 11, p. 1257–1264, 2002. https://doi.org/10.1071/AR02055
Liu, Y. et al. Effect of methionine deficiency on the growth performance, serum amino acids concentrations, gut microbiota and subsequent laying performance of layer chicks. Frontiers in Veterinary Science, v. 9, 878107, 2022. https://doi.org/10.3389/fvets.2022.878107
Feedipedia (INRAE, CIRAD, AFZ, FAO). Soybean meal e Sunflower meal. https://www.feedipedia.org/node/674 e https://www.feedipedia.org/node/732
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