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Por que só a fórmula B levou lisina e triptofano

Girassol e farinha de carne no lugar de farelo de soja mudaram o perfil de aminoácidos da fórmula B, e o otimizador completou a conta com sintéticos.

Por José Evangelista

· · 7 min de leitura

Amostras de farelo de soja, farelo de girassol e farinha de carne com aminoácido em pó em bancada de laboratório
Imagem gerada por IA

Série Raio-X da Fórmula · Episódio 7 de 10 · Lisina e Triptofano

Das três fórmulas de postura analisadas nesta série, apenas a B recebeu L-lisina (0,24 kg/t) e L-triptofano (0,05 kg/t, ou 50 gramas por tonelada). O recorte da tabela aponta o motivo: B tem menos farelo de soja, mais farelo de girassol e é a única com farinha de carne. A troca baixou o custo, mudou o perfil de aminoácidos e o otimizador de custo mínimo fechou a diferença com sintéticos.

Ingrediente

R$/kg

A (kg/t)

B (kg/t)

C (kg/t)

Farelo de soja

1,720

178

151

145

Soja integral

2,140

79

77

136

Farelo de girassol (28% PB)

0,980

35

43

20

Farinha de carne (42% PB)

1,880

–

23

–

DL-metionina

29,000

1,70

1,72

2,30

L-lisina 78%

9,130

–

0,24

–

L-triptofano

28,590

–

0,05

–

Custo da fórmula (R$/kg)

1,587

1,516

1,643

Preços de referência usados na formulação analisada (jun/2026); variam por região e data.

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Metionina vem primeiro, nas três fórmulas

Em rações de milho e farelo de soja para aves, a metionina é o primeiro aminoácido limitante. Para poedeiras, a literatura classifica a metionina como o primeiro limitante, e em algumas dietas como o segundo. O nível de metionina afeta a produção e o peso do ovo. Atender a exigência de aminoácidos sulfurados (metionina e cistina) só com proteína intacta obrigaria a subir a proteína bruta (PB) muito além do necessário para os demais aminoácidos.

Por isso as três fórmulas trazem DL-metionina, entre 1,70 e 2,30 kg/t. A R$ 29,00/kg, ela pesa entre 3,1% e 4,1% do custo da tonelada (R$ 49,30 em A, R$ 49,88 em B e R$ 66,70 em C). A fórmula C, com menos farelo de soja e mais soja integral, usa a maior dose. Uma leitura possível é que C atende a uma exigência mais alta, como a de pico de postura; o relatório não informa a fase.

Lisina e triptofano vêm depois na ordem de limitação. A fórmula sugere que, em A e C, farelo de soja e soja integral bastaram para atender a esses dois aminoácidos.

O que mudou na fórmula B

A fórmula mostra três movimentos em B, comparada com A: 27 kg/t a menos de farelo de soja, 8 kg/t a mais de farelo de girassol e 23 kg/t de farinha de carne, além da retirada do fosfato.

Pelos dados da base Feedipedia, o farelo de soja tem em média 6,2% de lisina na proteína, 1,4% de metionina e 1,4% de triptofano. O farelo de girassol tem cerca de 3,5% de lisina na proteína, pouco mais da metade do farelo de soja, e 2,3% de metionina, valor mais alto que o da soja. Como o girassol usado em B tem 28% de PB, cada quilo dele entrega bem menos lisina que um quilo de farelo de soja.

A farinha de carne tem proteína rica em colágeno, que praticamente não contém triptofano. Ela também é pobre em cistina: em estudo com 19 amostras comerciais avaliadas em frangos de corte, Ravindran e colaboradores (2002) apontaram a cistina como o primeiro limitante da farinha de carne e ossos, e com a menor digestibilidade.

Uma leitura provável do resultado: girassol e farinha de carne repõem a proteína e boa parte da metionina retiradas com o farelo de soja, o que explica a DL-metionina praticamente igual entre A e B. Mas trazem menos lisina e, sobretudo, menos triptofano por unidade de proteína.

Como o otimizador decide: o preço-sombra

A formulação de custo mínimo usa programação linear: o software busca a combinação mais barata que atenda a todas as restrições. Quando uma restrição está "ativa", ou seja, o nutriente está exatamente no mínimo exigido, o programa calcula seu preço-sombra: quanto o custo da fórmula subiria se a exigência aumentasse uma unidade. Uma restrição atendida com folga tem preço-sombra zero.

Em A e C, a lisina e o triptofano provavelmente estavam com folga ou com preço-sombra baixo, e o sintético não se pagava. Em B, depois que girassol e farinha de carne entraram por fornecer proteína (e, no caso da farinha, cálcio e fósforo) a custo menor, a lisina e o triptofano passaram a limitar. Atendê-los com proteína intacta exigiria devolver farelo de soja à fórmula; atendê-los com L-lisina a R$ 9,13/kg e L-triptofano a R$ 28,59/kg custou R$ 2,19 e R$ 1,43 por tonelada. O otimizador escolheu o sintético porque essa era a solução de menor custo, e B terminou R$ 70,47/t mais barata que A.

O relatório de sensibilidade do software também mostra quanto o preço de cada ingrediente fora da fórmula teria de cair para ele entrar.

Proteína ideal para postura

Na proteína ideal, a exigência de cada aminoácido essencial é expressa como proporção da lisina digestível, com relações próprias para cada fase. No Brasil, a principal referência são as Tabelas Brasileiras para Aves e Suínos (Rostagno et al., UFV), cuja 5ª edição, de 2024, traz composição de alimentos com aminoácidos digestíveis e exigências para poedeiras. A edição atualizou o cálculo da exigência de cálcio e incluiu nova equação de exigência de energia líquida para poedeiras leves e semipesadas.

O ponto para a fórmula B é que a decisão de incluir lisina e triptofano só é segura se exigências e ingredientes estiverem na mesma base, de preferência em aminoácidos digestíveis. Uma matriz de farinha de carne em aminoácidos totais superestima o que a ave aproveita.

Os riscos: margem empilhada e qualidade da farinha

O primeiro risco é sobrepor margens de segurança. Quando o formulador aumenta a exigência por precaução, usa coeficientes de digestibilidade conservadores e ainda arredonda os sintéticos para cima, as margens se somam: o custo sobe e o excesso de aminoácidos vira nitrogênio excretado. No outro extremo, sem folga nenhuma, qualquer erro de matriz aparece no peso e na produção de ovos.

O segundo risco é a farinha de carne. No estudo de Ravindran e colaboradores, a PB das amostras variou de 38,5% a 67,2% e as cinzas, de 13,0% a 56,5%. As cinzas foram o único parâmetro químico que se correlacionou de forma consistente com a digestibilidade dos aminoácidos: quanto mais cinza, menor a digestibilidade da maioria deles. Testes de solubilidade proteica e de digestibilidade em pepsina se mostraram pouco sensíveis a essa variação. Um lote com mais osso entrega menos aminoácido digestível do que a matriz prevê.

Na prática: o que o formulador deve observar

  • Formular lisina, metionina + cistina, treonina e triptofano em base digestível, com matriz e exigência da mesma fonte.

  • Analisar PB, cinzas, cálcio e fósforo de cada lote de farinha de carne e corrigir a matriz quando sair da faixa contratada.

  • Revisar o preço-sombra de lisina e triptofano a cada nova rodada de preços.

  • Evitar empilhar margens de segurança em exigência, digestibilidade e dose.

  • Garantir pré-mistura ou balança de micro com resolução para 50 g/t de L-triptofano.

A decisão para o gestor

A fórmula B mostra que trocar farelo de soja por ingredientes mais baratos rende economia real, mas transfere parte do risco para o controle de qualidade e para a dosagem de microingredientes. Antes de adotá-la, o gestor deve confirmar que o laboratório analisa cada lote de farinha de carne e que a fábrica dosa 50 g/t com precisão. Sem isso, os R$ 70 por tonelada economizados podem voltar como perda de produção.

Leia também na série Raio-X da Fórmula:

No próximo Raio-X: a fórmula C usa mais que o dobro do sal da fórmula B; o episódio 8 explica como sal e bicarbonato fecham o balanço eletrolítico da poedeira.

Referências

  • Rostagno, H. S.; Albino, L. F. T. (coord.). Tabelas Brasileiras para Aves e Suínos: composição de alimentos e exigências nutricionais. 5. ed. Viçosa: UFV, 2024.

  • Ravindran, V.; Hendriks, W. H.; Camden, B. J.; Thomas, D. V.; Morel, P. C. H.; Butts, C. A. Amino acid digestibility of meat and bone meals for broiler chickens. Australian Journal of Agricultural Research, v. 53, n. 11, p. 1257–1264, 2002. https://doi.org/10.1071/AR02055

  • Liu, Y. et al. Effect of methionine deficiency on the growth performance, serum amino acids concentrations, gut microbiota and subsequent laying performance of layer chicks. Frontiers in Veterinary Science, v. 9, 878107, 2022. https://doi.org/10.3389/fvets.2022.878107

  • Feedipedia (INRAE, CIRAD, AFZ, FAO). Soybean meal e Sunflower meal. https://www.feedipedia.org/node/674 e https://www.feedipedia.org/node/732

  • L-lisina
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