Caso da Semana #1: a batida saiu com CV de 18%
Uma fábrica de ração para suínos e aves repete o teste de mistura e encontra CV de 18%. Seis pistas, uma causa principal
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O laudo chegou numa terça-feira: coeficiente de variação (CV) de 18% no teste de mistura da ração de terminação de frangos. Sete meses antes, o mesmo misturador tinha entregado 6%. A equipe tem seis informações sobre o que mudou na fábrica, e uma delas explica a maior parte do problema.
Caso construído pela redação com base em situações comuns de fábrica. Empresa e pessoas são fictícios.
Por que 18% chama atenção
O CV mede a dispersão da concentração de um marcador entre amostras da mesma batida: desvio-padrão dividido pela média, em porcentagem. Quanto maior, menos uniforme a mistura e maior a chance de um lote de animais receber nutriente ou aditivo acima ou abaixo do formulado.
A referência de mercado é CV abaixo de 10%, valor que o guia de qualidade da Kansas State University descreve como padrão da indústria. A publicação Testing Mixer Performance (MF3393), da mesma universidade, reproduz a tabela de Herrman e Behnke (1994) que classifica a faixa de 15% a 20% como "regular" e recomenda, nesse caso, aumentar o tempo de mistura em 50% e investigar desgaste de equipamento, excesso de carga e sequência de adição de ingredientes.
No Brasil, a Portaria SDA nº 798, de 10 de maio de 2023, fixa CV inferior a 10% como critério de aceitação do teste de homogeneidade quando o método é a avaliação da concentração de uma substância (para contagem de partículas metálicas, o critério é probabilidade acima de 5%). A exigência vale para estabelecimentos que fabricam produtos para alimentação animal com medicamentos de uso veterinário. A ração deste caso não leva medicamento, então o número entra aqui só como referência técnica.
A fábrica
A unidade fictícia produz ração farelada e peletizada para suínos e aves, com misturador horizontal de dupla fita e batidas de 2 toneladas. O teste segue o procedimento interno: dez amostras retiradas em sequência na descarga do misturador, sal (cloreto de sódio) como marcador, análise de cloretos no laboratório da própria fábrica. A fórmula testada é a ração de terminação de frangos, com 0,35% de sal adicionado pela moega de microingredientes junto com o premix.
As pistas
Pista 1. O histórico. O teste anterior, sete meses atrás, usou a mesma ração de terminação, o mesmo misturador e o mesmo marcador. Resultado: CV de 6%. Naquela época a fórmula não tinha óleo.
Pista 2. O tempo de ciclo. Há dois meses, para atender um aumento de pedidos, o tempo total de mistura caiu de 240 para 180 segundos por batida. A mudança foi feita no CLP (controlador lógico programável) e vale para todas as fórmulas.
Pista 3. O óleo. Há três meses, a ração de terminação passou a levar 3% de óleo de soja. Na instalação da nova linha de óleo, o CLP foi programado para abrir a válvula de pulverização cinco segundos depois que a balança termina de descarregar no misturador. A pulverização dura cerca de 40 segundos.
Pista 4. A manutenção. O relatório de inspeção do mês passado anotou desgaste nas bordas das fitas do misturador. A troca está programada para a próxima parada, daqui a quatro semanas.
Pista 5. A batida de controle. No mesmo dia, a equipe testou uma ração de gestação para suínos, sem óleo na fórmula, com o mesmo ciclo de 180 segundos, o mesmo marcador, a mesma pessoa coletando as amostras e o mesmo laboratório. Resultado: CV de 7%.
Pista 6. As amostras. Na ração de terminação, sete das dez amostras ficaram próximas da média. Três apresentaram teor de cloreto perto do dobro. O técnico do laboratório anotou que essas três tinham pequenos grumos de pó fino, levemente oleosos ao toque.
Onde está o erro?
Antes de responder, organize o raciocínio:
Quais pistas apontam para algo que afeta todas as fórmulas e quais só para a ração de terminação?
O que a batida de controle (pista 5) permite descartar?
Que tipo de falha produz poucas amostras muito acima da média, em vez de valores espalhados dos dois lados?
Em que momento do ciclo cada ingrediente entra no misturador, e o que encontra lá dentro?
Uma causa explica a maior parte do CV de 18%. Outras pistas descrevem situações reais que merecem atenção, mas não respondem pelo resultado deste teste.
Na prática: checklist para a fábrica
Antes de concluir sobre um CV alto, a fábrica pode conferir:
Batida de controle: repita o teste com outra fórmula, mesmo marcador e mesmo amostrador, para separar problema de equipamento de problema de fórmula.
Programação do CLP: imprima a sequência real de abertura de comportas e válvulas e compare com o procedimento escrito.
Tempos de mistura: confirme o tempo de mistura a seco e o tempo de mistura úmida para cada fórmula, não só o tempo total.
Estado do misturador: inspecione fitas ou pás, acúmulo de material aderido e se a carga respeita o volume nominal do equipamento.
Distribuição dos resultados: olhe as dez amostras uma a uma; o padrão dos desvios ajuda a localizar a causa.
Marcador: use um marcador que venha de uma única fonte na fórmula e com método analítico conhecido pelo laboratório.
O que está em jogo para a fábrica
Um CV de 18% na ração de terminação significa que parte das aves recebe premix e sal em excesso e parte recebe menos do que o nutricionista formulou. Em ração com aditivo de dose crítica ou com medicamento, o risco se torna sanitário e regulatório. Aumentar o tempo de mistura por reflexo pode custar produção sem resolver nada. A decisão do gestor começa por identificar qual mudança recente alterou o processo, corrigir na origem e repetir o teste antes de liberar a programação.
A resposta comentada sai na próxima edição da newsletter FeedConecta e no Caso da Semana #2.
Leia também no FeedConecta:
Referências
Kansas State University. Stark, C.; Saensukjaroenphon, M. Testing Mixer Performance (MF3393), 2017. https://bookstore.ksre.ksu.edu/download/testing-mixer-performance_MF3393
Kansas State University, Feed Science. Quality Feed Manufacturing Guide: Batching and Mixing (seção 1.3). https://www.grains.k-state.edu/research/animalfeedandpetfood/feed_science_research_extension/quality_assurance_guidelines_resources/1.3%20Batching%20and%20Mixing_FORMATTED.pdf
Ministério da Agricultura e Pecuária. Portaria SDA nº 798, de 10 de maio de 2023 (DOU de 15/05/2023), e retificação publicada no DOU de 17/05/2023. https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/insumos-agropecuarios/insumos-pecuarios/alimentacao-animal/copy_of_retificao798.pdf
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