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Calcário a 10% da ração: cálcio, granulometria e casca

Uma fórmula de postura com 94 a 100 kg/t de calcário mostra por que teor de cálcio, tamanho de partícula e controle no recebimento definem a casca.

Por José Evangelista

· · 8 min de leitura

Calcário calcítico grosso e fino em bandeja de amostragem, ao lado de peneiras de laboratório e ovos brancos.
Imagem gerada por IA

Série Raio-X da Fórmula · Episódio 3 de 10 · Calcário a 10%

Ingrediente (kg/t)

R$/kg*

A

B

C

Calcário calcítico

0,610

97,5

94

100

Fosfato de cálcio (rótulo "22%")

7,330

5

–

5

Farinha de carne (42% PB)

1,880

–

23

–

*Preços de referência usados na formulação analisada (jun/2026); variam por região e data.

Em cada tonelada das três rações de postura analisadas nesta série, entre 94 e 100 kg são calcário calcítico. É o quarto ingrediente em massa da fórmula, atrás de milho, sorgo e farelo de soja, e custa só R$ 57 a R$ 61 por tonelada (3,7% a 3,8% do custo). É dele que sai praticamente todo o cálcio da casca do ovo.

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A conta do cálcio

A fórmula, cedida por um nutricionista que atua no mercado de postura, não informa o teor de cálcio (Ca) do calcário usado. A literatura dá a referência. Em um estudo da Universidade Federal de Viçosa publicado na Scientia Agricola em 2023, os calcários calcíticos fino e grosso analisados tinham 37,5% de Ca. Um trabalho anterior, publicado na Acta Scientiarum em 2006, encontrou 35% a 36%. Artigos técnicos do setor citam variação entre 32% e 38% entre fontes e lotes.

Com 35% a 38% de Ca, os 94 a 100 kg/t de calcário fornecem entre 3,3% e 3,8% de cálcio na ração. Meio ponto percentual a menos no teor do calcário tira quase meio grama de Ca de cada quilo de ração, e o lote sai da fábrica abaixo do que o formulador calculou.

O motivo de tanto cálcio está na fisiologia. Uma revisão publicada na Frontiers in Physiology em 2023 descreve que a casca é formada nas últimas 19 a 20 horas do ciclo de cerca de 24 horas do ovo, e a maior parte da calcificação ocorre no escuro, quando a ave não come. Nesse período, a galinha mobiliza de 20% a 40% do cálcio da casca a partir do osso medular. O restante precisa vir do intestino durante a noite.

Calcítico, não dolomítico

O calcário dolomítico, comum na correção de solo, tem menos cálcio e mais de 10% de magnésio (Mg), segundo artigos técnicos. O magnésio compete com o cálcio pela absorção e pode se ligar a ele no intestino, por isso a recomendação técnica é não usar calcário dolomítico em ração de poedeiras. Pequenas quantidades de Mg na dieta não são o problema: um estudo tcheco de 2016 testou até 4 g de Mg/kg (via óxido de magnésio) sem prejuízo à casca. O risco está em receber como calcítico um material com Mg alto e Ca baixo, o que derruba o cálcio real da ração.

Grosso e fino: a granulometria que alimenta a noite

Partículas grossas ficam retidas na moela e se dissolvem aos poucos, liberando cálcio durante a noite. O estudo da Scientia Agricola mediu o efeito. O calcário fino (diâmetro geométrico médio, DGM, de 480 µm) teve solubilidade in vitro de 24,5% e digestibilidade aparente do Ca de 0,72. O grosso (DGM de 1.978 µm) teve 15,5% e 0,35. Menor digestibilidade medida, porém, não significa casca pior. O trabalho de 2006 relatou que o calcário fino prejudicou a qualidade da casca, enquanto o grosso e a mistura melhoraram a densidade aparente dos ovos. O estudo tcheco também encontrou casca mais resistente com calcário de 0,8 a 2 mm.

Na prática, as linhagens orientam misturar as duas frações. Um boletim técnico da Hy-Line International define o grosso como 2 a 4 mm e o fino como 1 a 2 mm e recomenda cerca de 60% de grosso na primeira fase de postura, chegando a 75% na última, quando a casca tende a piorar com a idade. Os valores dependem da linhagem, da fonte do calcário e do manejo de luz.

O relatório da fórmula traz um único item "calcário calcítico". Uma leitura possível é que a divisão entre grosso e fino seja feita na fábrica, em dois silos, ou definida pelo fornecedor. O documento não informa.

Fósforo: 5 kg ou nada

As fórmulas A e C levam 5 kg/t de fosfato; a B, nenhum. A poedeira exige pouco fósforo disponível em relação ao cálcio. Na tabela do NRC (1994) para poedeiras de ovos brancos com consumo de 100 g/dia, a exigência é de 3,30% de Ca e 0,25% de P disponível, relação próxima de 13:1, muito mais larga que a de frangos de corte. Excesso de fósforo pode atrapalhar a calcificação: a mesma revisão de 2023 aponta o fosfato como inibidor da formação de calcita na casca.

O rótulo "22%" é ambíguo. Em faixas técnicas típicas, fosfato bicálcico tem 18% a 19% de P e mais de 22% de Ca; fosfato monocálcico ou mono-bicálcico tem de 20% a 22,7% de P e de 15% a 23% de Ca. "22%" pode ser o teor de Ca de um bicálcico ou o de P de um monocálcico. A diferença muda a matriz: 5 kg/t de um produto com 18% de P fornecem 0,9 kg de P por tonelada; com 22%, 1,1 kg.

Duas hipóteses, não confirmadas pela fórmula, explicam a dose baixa. A enzima incluída a 140 g/t pode ser uma fitase com matriz de fósforo; e, na fórmula B, a farinha de carne entra no lugar do fosfato. Levantamentos da Embrapa encontraram em farinhas de carne e ossos suínas de 6,5% a 10,9% de Ca e de 3,5% a 8,6% de P (base seca). Essa variação é o que o Episódio 6 vai discutir.

Do caminhão ao comedouro

O calcário grosso tem densidade e tamanho diferentes do restante da ração. Ele tende a se separar no transporte pneumático, nas quedas para silos e no comedouro tipo calha com corrente, onde as partículas pesadas se acumulam em pontos do circuito. Ração que sai correta do misturador pode chegar à ave com outra proporção de calcário.

Na prática: checklist para a fábrica

  • Exija laudo por lote com teor de Ca e Mg e confira por amostragem própria; ajuste a matriz ao teor medido, não ao de catálogo.

  • Recuse material com Mg compatível com calcário dolomítico ou magnesiano.

  • Faça teste de peneira no recebimento para separar grosso e fino e compare com a especificação contratada.

  • Solicite análise periódica de resíduo insolúvel (sílica) e de metais pesados ao fornecedor.

  • Se possível, faça teste de solubilidade in vitro para comparar fontes de mesma granulometria.

  • Defina no rótulo interno do fosfato se o "22%" se refere a P ou a Ca e ajuste a matriz.

  • Colete amostras de ração no início e no fim do circuito de comedouros e compare o teor de Ca.

Decisão para o gestor

O calcário pesa menos de 4% no custo da tonelada; a diferença de preço entre fornecedores é pequena perto do prejuízo com ovos trincados. A compra deve se basear no teor de cálcio garantido, na granulometria contratada e na regularidade entre lotes, com o mesmo rigor de recebimento aplicado ao farelo de soja.

Leia também na série Raio-X da Fórmula:

No próximo Raio-X: 20% de sorgo na ração reduzem o custo, mas também os carotenoides que dão cor à gema. Veja o que o formulador precisa compensar.

Referências

  • Diana, T. F. et al. Apparent calcium retention and digestibility coefficients of limestone with different particle sizes in laying hens. Scientia Agricola, v. 80, e20210258, 2023 (repositório Alice/Embrapa). https://www.alice.cnptia.embrapa.br/alice/bitstream/doc/1151847/1/final10115.pdf

  • Ito, D. T. et al. Efeitos do fracionamento do cálcio dietário e granulometria do calcário sobre o desempenho e qualidade dos ovos de poedeiras comerciais. Acta Scientiarum. Animal Sciences, v. 28, n. 2, p. 187-195, 2006. https://www.redalyc.org/pdf/3031/303126481005.pdf

  • Sinclair-Black, M.; Garcia, R. A.; Ellestad, L. E. Physiological regulation of calcium and phosphorus utilization in laying hens. Frontiers in Physiology, v. 14, 1112499, 2023.

  • Hy-Line International. Feed preparation: key areas of opportunity (Technical Update). https://www.hyline.com/Upload/Resources/TU%20FEEDPREP%20ENG.pdf

  • Skřivan, M. et al. Effect of dietary magnesium, calcium, phosphorus, and limestone grain size on productive performance and eggshell quality of hens. Czech Journal of Animal Science, v. 61, p. 473-480, 2016.

  • Mavromichalis, I. In layer diets, limestone is not just calcium carbonate. Feed Strategy, 2022 (publicado originalmente em 2015).

  • Feddern, V.; Laux, A. R.; Lima, G. J. M. M. Variabilidade da composição de farinha de carne e ossos suína de diferentes procedências. Embrapa, 2013. https://www.alice.cnptia.embrapa.br/alice/bitstream/doc/973296/1/final7258.pdf

  • National Research Council. Nutrient Requirements of Poultry, 9ª ed., 1994 (tabela reproduzida no MSD/Merck Veterinary Manual).

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