Sal e bicarbonato: o balanço eletrolítico da poedeira
Com 2 kg/t de bicarbonato fixos e sal entre 1,86 e 4,06 kg/t, a fórmula mostra como o otimizador fecha sódio e cloro sem desequilibrar a ave.
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Série Raio-X da Fórmula · Episódio 8 de 10 · Sal e Bicarbonato
Ingrediente (kg/t) | R$/kg* | A | B | C |
|---|---|---|---|---|
Sal comum | 0,730 | 2,24 | 1,86 | 4,06 |
Bicarbonato de sódio | 3,480 | 2 | 2 | 2 |
Farinha de carne (42% PB) | 1,880 | – | 23 | – |
Cloreto de colina 60% | 6,270 | 1,25 | 1,30 | 1,30 |
*Preços de referência usados na formulação analisada (jun/2026); variam por região e data.
Nas três rações de postura analisadas nesta série, o bicarbonato de sódio entra com 2 kg/t em todas, enquanto o sal comum varia mais de duas vezes, de 1,86 kg/t na fórmula B a 4,06 kg/t na C. Juntos, sal e bicarbonato custam entre R$ 8 e R$ 10 por tonelada. O par define quanto sódio e cloro a ave recebe e quanto ela bebe.
Quanto sódio e cloro a fórmula entrega
O sal comum é cloreto de sódio (NaCl): puro, tem 39,3% de sódio (Na) e 60,7% de cloro (Cl). O bicarbonato de sódio (NaHCO₃) tem 27,4% de Na e nenhum cloro. Com essas proporções teóricas, que o sal comercial não atinge exatamente, é possível estimar o que as duas fontes suplementares fornecem:
Fórmula A: cerca de 0,14% de Na e 0,14% de Cl.
Fórmula B: cerca de 0,13% de Na e 0,11% de Cl.
Fórmula C: cerca de 0,21% de Na e 0,25% de Cl.
Em todas, o bicarbonato responde por 0,055% de Na. A conta não inclui o pouco que vem de grãos e farelos.
Como referência, a tabela do NRC (1994) para poedeiras leves indica 0,15% de Na e 0,13% de Cl na dieta. Um guia técnico publicado em 2026 pela Hendrix Genetics recomenda 180 mg de sódio por ave por dia e de 170 a 260 mg de cloro, conforme as condições locais. As exigências em porcentagem dependem do consumo de ração: com 100 g/dia, 180 mg equivalem a 0,18% de Na. As Tabelas Brasileiras para Aves e Suínos, cuja 5ª edição foi lançada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) em 2024, trazem as exigências brasileiras por fase e linhagem e devem ser a base da matriz.
A fórmula C tem quase o dobro de sal das outras. Uma leitura possível, não confirmada pelo relatório, é que atenda a uma fase de menor consumo de ração, o que eleva a concentração necessária.
O que é o balanço eletrolítico
O balanço eletrolítico da dieta (BED) é calculado como Na + K − Cl, em miliequivalentes por quilo de ração (mEq/kg). Ele indica se a dieta tende a alcalinizar ou acidificar o organismo. Valores muito baixos favorecem acidose; muito altos, alcalose. A faixa de cerca de 250 mEq/kg, proposta por Mongin no início dos anos 1980, é a mais citada na literatura, mas foi construída principalmente com frangos de corte. Para poedeiras, os resultados são menos consistentes, e não há um número único que a literatura sustente.
A conta revela um detalhe que explica a escolha do bicarbonato. Cada molécula de NaCl traz um equivalente de Na e um de Cl, e o efeito líquido no BED é zero. Trocar sal por mais sal não move o balanço. Já os 2 kg/t de bicarbonato adicionam cerca de 24 mEq/kg de sódio sem nenhum cloro, e esse é o único item da lista que desloca o BED para cima. O potássio (K) vem quase todo do farelo de soja e da soja integral, o que faz o BED variar com a inclusão de soja.
Bicarbonato, calor e casca
Na formação da casca, cada molécula de carbonato de cálcio depositada no útero libera íons hidrogênio (H⁺), o que acidifica o sangue e o fluido uterino. O bicarbonato do sangue é a matéria-prima do carbonato. Segundo trabalhos revisados na literatura nacional, excesso de cloro acidifica o sangue, reduz o bicarbonato no útero e piora a casca, efeito descrito com 0,8% de Cl, nível muito acima do praticado.
O calor agrava o quadro. Ao ofegar, a galinha perde CO₂ em excesso, entra em alcalose respiratória e os rins passam a eliminar mais bicarbonato e potássio. Menos bicarbonato circulante significa menos substrato para a casca. Um estudo australiano com poedeiras mantidas a 32 °C, publicado em 1997 no Australian Journal of Agricultural Research, testou 1% de bicarbonato na ração (cinco vezes a dose da fórmula analisada). A resistência da casca melhorou 3% com programa de luz convencional e 7% com luz intermitente, mas as diferenças do bicarbonato não foram estatisticamente significativas. A literatura indica benefício possível em calor, de tamanho moderado.
Água, excretas e a fórmula B
Sódio e potássio aumentam o consumo de água e a umidade das excretas. O guia da Hendrix Genetics lista o sal e o bicarbonato como principais fontes de sódio e o farelo de soja como principal fonte de potássio. A fórmula B tem o menor nível de sal. Uma leitura possível é que a farinha de carne, presente só nela, cubra parte do sódio. A base Feedipedia, mantida com apoio da FAO, registra em média 7,5 g de Na por kg de matéria seca em farinha de carne e ossos, com variação de 5,2 a 11,5 g/kg. Com valores nessa faixa, os 23 kg/t de farinha aportam algo próximo dos 0,15 kg/t de sódio que o sal a menos deixou de fornecer em relação à fórmula A. A conta é coerente, mas depende do lote e não foi informada pelo nutricionista.
Outras fontes de sódio e cloro
O sal e o bicarbonato não são as únicas entradas. O cloreto de colina, a 1,25–1,30 kg/t do produto a 60%, traz cerca de 0,2 kg de cloro por tonelada (0,02% da ração). A L-lisina na forma de cloridrato, usada na fórmula B, aporta cloro em quantidade pequena. Farinhas animais variam de lote para lote. A água de bebida pode ter sódio e cloreto, e o guia da Hendrix inclui esses dois parâmetros entre os que devem ser monitorados.
Na prática: o que o formulador deve observar
Cadastre Na e Cl de farinhas animais pelo resultado de análise do lote, não pelo valor médio de tabela.
Inclua o cloro do cloreto de colina e da lisina na matriz.
Acompanhe o BED calculado da fórmula e não apenas os mínimos de Na e Cl; mudanças de soja alteram o potássio.
Analise sódio e cloreto da água das granjas atendidas ao menos uma vez por ano e após troca de fonte.
Em períodos de calor, avalie com o veterinário o uso de bicarbonato e confira se não há duplicidade entre ração e água.
Registre reclamações de excreta úmida e ovos sujos e cruze com mudanças de sal ou de fornecedor de farinha.
Decisão para o gestor
Sal e bicarbonato custam menos de 1% da tonelada; o risco está nos erros de matriz. Sódio acima do necessário aumenta a umidade das excretas e a sujeira dos ovos, e cloro alto em dias quentes pesa na casca. A fábrica precisa analisar sódio e cloro nos ingredientes que variam, como farinhas animais e água, e definir quem decide o uso de eletrólitos no calor, para não somar ração e bebedouro.
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Referências
National Research Council. Nutrient Requirements of Poultry, 9ª ed., 1994 (exigências de Na e Cl para poedeiras leves reproduzidas no MSD/Merck Veterinary Manual). https://www.merckvetmanual.com/multimedia/table/linoleic-acid-mineral-and-vitamin-requirements-of-leghorn-type-chickens
Balnave, D.; Muheereza, S. K. Intermittent lighting and dietary sodium bicarbonate supplementation for laying hens at high temperatures. Australian Journal of Agricultural Research, v. 49, n. 2, p. 279-284. https://doi.org/10.1071/A97101
Leentfaar, E. Mitigating wet sticky droppings in alternative housing. Hendrix Genetics Layers, 2026. https://layinghens.hendrix-genetics.com/en/articles/mitigating-wet-sticky-droppings-in-alternative-housing/
Feedipedia (INRAE, CIRAD, AFZ, FAO). Meat and bone meal. https://www.feedipedia.org/node/222
Agrolink. Importância do cloro na nutrição de poedeiras (coluna técnica). https://www.agrolink.com.br/colunistas/importancia-do-cloro-na-nutricao-de-poedeiras_386815.html
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